A quem interessa ser contra o diploma ?
Mário Xavier
Sou jornalista graduado como Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1982. Exerço a profissão há quase duas décadas, desde 1980. E me orgulho de fazer parte de uma geração de comunicadores que freqüentou a academia como forma de melhor embasar sua formação pessoal, intelectual e humana. Amo o que faço. E faço-o baseado em ideais, valores e critérios compartilhados com a maioria dos colegas jornalistas que conheço.
É quase paradoxal que precisemos levantar um debate público sobre os "30 anos de diploma" sob a sombra de uma suposta irrelevância que teriam os cursos superiores de Comunicação no processo de habilitar jornalistas para o mercado de trabalho.
Parece óbvio reconhecer que nenhum curso de graduação tem o dom de, por si só, automaticamente assegurar o adequado estofo ético, técnico e comportamental que cada profissão contemporânea exige dos mais diversos tipos de profissionais.
Mas menosprezar o papel das faculdades de Comunicação e dos seus egressos diplomados em favor de apenas uma simples formação de jornalistas "na escola da vida" me parece de uma ingenuidade e anacronismo formidáveis.
Isto quando não reflete explicitamente uma intenção de má fé e interesse em explorar sem qualquer regulamentação a mão-de-obra especializada de toda uma categoria de operários intelectuais.
Afinal, a quem interessa, hoje em dia, ser contra o diploma de jornalista e contra a formação acadêmica responsável e qualificada de comunicadores sociais em pleno final de século XX?
Os primeiros a argumentarem contra a exigência de curso superior de Jornalismo para o exercício legal da profissão são os empresários que não querem reconhecer integralmente a importância da responsabilidade ética e cultural dos jornalistas no processo de formação e transformação social.
São também os empresários, em primeira análise, que mais podem se beneficiar financeiramente de uma categoria de trabalhadores sem força de organização, integridade de princípios e padrões mínimos de conduta e remuneração regulando suas relações com os empregadores e proprietários dos veículos de comunicação.
Na medida em que tivéssemos nas Redações apenas "colaboradores" e "práticos" sem uma formação acadêmica nivelada e sem uma organização sindical e de classe conseqüentemente estruturada, administradores e gerentes de pessoal poderiam contratar e descontratar profissionais ao sabor preponderante dos interesses e casuísmos ideológicos, políticos e econômicos dos dirigentes empresariais de plantão.
Mais do que isto, o público consumidor de "produtos da mídia" não teria garantia alguma acerca da efetiva busca de qualidade da informação e de processos mais democráticos e éticos de produção e difusão das notícias: objetivos esses perseguidos continuamente tanto pelos Cursos de Comunicação honestos como pelas entidades de classe responsáveis pelo registro e fiscalização profissional dos jornalistas.
Fazendo um auto-exame sincero, quais os jornalistas que hoje ocupam a maior parte dos cargos de edição e reportagem da imprensa brasileira são contra a própria formação que tiveram ? Eu não conheço nenhum.
Nas raras vezes em que alguém defende publicamente a não obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, geralmente é um dono ou representante de algum dos maiores grupos empresariais privados que controlam a comunicação de massa no Brasil, como a Folha ou a RBS.
Há uma avassaladora diferença entre ser um jornalista profissional da comunicação e um empresário da comunicação de massa.
Assim como já são mais claramente distintas, hoje, as dimensões do que seria uma autêntica "liberdade de imprensa" e o que se configura como uma eficaz "liberdade de empresa": esta última tendo como meta maior - e exclusiva, em alguns casos - apenas o sucesso comercial de mercado.
Por mais que critiquem a academia - e eu mesmo tive e tenho minhas reservas justificadas a certos segmentos dela -, não há como negar que as Universidades têm sido absolutamente fundamentais para a elevação do padrão técnico, ético e cultural da Comunicação que se busca praticar no Brasil.
Pesquisar, produzir análises, investigar, interagir com estabelecimentos de ensino no país e no exterior, desenvolver estudos científicos, fomentar as Humanidades junto a uma preparação técnica e tecnológica que acompanhe os novos tempos mediáticos e internéticos, enfim, o que seria da Imprensa brasileira sem a exigência de Cursos de formação superior e seus respectivos diplomas como pressupostos básicos para a regulamentação e exercício da profissão de jornalista?
O diploma, como símbolo de um treinamento para o exercício mais qualificado e ético de nossa profissão, tem sido, é - e continuará a ser - vital para uma efetiva organização, desempenho social responsável e conquista de garantias elementares para nossa valorosa e ainda nem sempre devidamente reconhecida categoria de jornalistas.
Mário Xavier é jornalista em Florianópolis
mxavier@portadigital.com.br
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