Instituto Gutenberg
Resposta do PT à Folha
Texto da resposta que o Partido dos Trabalhadores encaminhou ao TSE para publicação na Folha, publicado espontaneamente pelo jornal em 31/8. Ao final, vai uma nota da redação anexada pela Folha
A matéria publicada no dia 26 de agosto último, nesta Folha, como título "Lula não registrou venda de terreno da mulher", foi mais uma tentativa de arranhar a imagem do candidato à Presidência da coligação "União do Povo - Muda Brasil".
Ficou evidente ao leitor do jornal a intenção da reportagem, assinada pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho, de imputar ao candidato da oposição transação irregular. A construção da notícia induz o leitor a concluir que houve "maracutaia" na venda do terreno.
A Folha, desde o título da matéria, mostra o candidato na condição de réu culpado com a obrigação de arcar com ônus da prova de um suposto crime. Agindo como se fosse um juiz, exige de Lula documentos que comprovem as operações de compra venda do terreno. O jornalista estava há pelo menos um mês e em tempo integral de trabalho "vasculhando" o caso. O resultado final acabou mostrando um trabalho insano para, a qualquer custo, expor e ferir o candidato em sua honestidade e honradez.
A matéria não mostrou nenhum ato irregular nem foi capaz de apontar um erro na transação. Ou seja, não conseguiu apontar nada contra o candidato Lula. Repetiu-se a tática da insinuação maldosa, das suspeitas deixadasno ar.A matéria da Folha é o exemplo do espetáculo teratológico proporcionado pelo jornalismo brasileiro, onde boa parte dos profissionais sai das redações com uma pauta na mão para que a realidade dos fatos adapte-se a ela. Foi assim que boa parte da imprensa brasileira julgou e condenou os "réus" do caso da Escola de Base e do caso Bodega. E tem sido assim o comportamento de boa parte da imprensa com relação ao PT. Quem não se lembra de pequenas notas publicadas nos jornais, em 1982, informando que Lula tinha uma casa no Morumbi, com um túnel ligando-a ao Sindicato dosMetalúrgicos em São Bernardo? E, nos anos seguintes, a imprensa tentou ligar o PT ao assassinato de dois trabalhadores bóias-frias em Leme, São Paulo; ao assalto no Banco do Brasil, na Bahia, ao sequestro do empresário Abílio Diniz, entre outros casos, que, "coincidentemente", apareceram às vésperas da eleição de 1994. Há quase dois anos, o jornalista e professor Bernardo Kucinski analisou esse comportamento praticado por certa parte daimprensa, definido por ele como "a arte da difamação nojornalismo brasileiro". Para ele, "a arte de difamar pela imprensa é essencialmente covarde. Acusa sem assumir. O jornalismo brasileiro, tão deficiente em precisão e em capacidade analítica, é mestre na calúnia, na injúria e na difamação.
"O linchamento é uma característica dominante da imprensabrasileira dos últimos tempos: com alguns rápidos toques de teclados foram destruídas reputações inúmeras, desde os donos da Escola de Base, até doleiros de menor importância. Esses linchamentos se caracterizam por não se referirem a um crime específico, por terem pouco ou nenhum fundamento, por uma severidade de julgamento desproporcional às eventuais falhas cometidas, e principalmente por negarem o direito de defesa e a mera possibilidade de o acusado ser inocente. "O mesmo tratamento não é dado pela imprensa aos grandes banqueiros que levaram à falência o Banco Nacional ou o Banco Econômico. Com estes, sempre se toma o cuidado de checar tudo duplamente, de qualificar a acusação, de conferir e reconferir, perguntar o que tem a dizer. Com o Lula não precisa. É do povo. O linchamento pela imprensa é o equivalente jornalístico da violência policial contra o pobre. Assim como o policial prende o pobre, bate e arrebenta, para depois perguntar o nome (se a tanto chegar). O rico pode ser "detido", mas tudodentro do maior respeito, e dali a duas horas está o advogado com o habeas corpus". A própria ombudsman da Folha, jornalista Renata Lo Prete, já alertava o jornal dos erros e das precipitações nas matérias veiculadas, quando analisou a cobertura jornalística do episódio do carro de Luiz Inácio Lula da Silva. Como o leitor deve se lembrar, a Folha acabou retificando a informação. "Neste caso", alertou, "a retificação não repara o erro".
Em seguida, ela mesma concluiu: "O jornal (Folha de S. Paulo) se precipitou na tentativa de recuperar uma suposta vantagem estabelecida pela concorrência (...). Nesse cenário, pratica-se um jornalismo de suposições: supõe-se que alguém lucrou com a não-desapropriação do terreno onde foi construído o apartamento
de Lula; supõe-se que há maracutaia se o carro foi vendido (e não foi) a um financiador de campanha".
Também da Folha de S. Paulo, a jornalista Eliane Cantanhêde, em artigo "A hipocrisia da crucificação", publicado no dia 16 de agosto, mostrava a sua indignação quanto ao tratamento das matérias do jornal sobre a vida de Lula. Para ela, "Lula nasceu em família pobre, comeu o pão que o diabo amassou, sacolejou num pau-de-arara até São Paulo e perdeu um dedo batalhando nas fábricas... Não é justo que agora..., tentem novamente atacar o que nele jamais foi atacável: a honra".
Clóvis Rossi, renomado jornalista do mesmo veículo de comunicação, expressou assim a sua desconfiança da cobertura da imprensa ao candidato Lula, em artigo publicado no dia 19 de agosto, "O crime de ser operário": "Todo noticiário (...) envolvendo a compra de um apartamento por Luiz Inácio Lula da Silva cabe à perfeição na expressão inglesa "innuendo', mais eloquente que seu equivalente "insinuação'. (...) um mínimo de equanimidade exigiria que (...) também se deveria pedir que um professor universitário, depois senador, provasse como pode ser dono de um apartamento em Higienópolis e de um sítio em Ibiúna e sócio de uma fazenda, como é o caso de FHC". Precipitação, linchamento, insinuação são algumas qualificações da matéria sobre a compra do terreno, que nos levam agora, em resposta, a ocupar esse espaço da Folha de S. Paulo para alertar os leitores que Lula foi vítima de mais uma acusação infundada.
De maneira leviana, jornal e jornalista apressaram-se em divulgar mais uma ilação como se notícia fosse, cientes de que era prejudicial do ponto de vista eleitoral ao candidato das oposições.
O PT, ao contrário dos demais partidos, não abandona sua indignação e não abre mão do direito de protestar quando se vê atingido em sua honra. Atitude exatamente oposta à tentativa de ocultar a verdade, como o editorial da Folha chamado "Moralidade petista", de 28 de agosto, afirma ser a postura do
partido.
O editorial acusa o PT de alimentar "o hábito de arrogar pureza"; de ser "defensor dos trabalhadores ou excluídos". "Furiosamente", como bem grifou o jornal, "se debate" para construir uma forma de governar e fazer política nesse país. Nesse caso, o que para a Folha é defeito, para nós é qualidade.
Por fim, infelizmente, a Folha não levou em consideração a crítica de sua própria ombudsman, que em seu artigo "A coragem de não publicar", escreveu: "Necessário como regra geral, o cuidado deveria ter sido redobrado porque estamos em campanha eleitoral, e a acusação recaiu sobre um candidato (...) Minha avaliação é que, com os mesmos elementos, o jornal dificilmente acusaria o presidente Fernando Henrique Cardoso".Nota da Redação - O recurso do PT ao TSE não passa de manobra diversionista. O partido e seu candidato foram procurados pelo jornal durante uma semana. A reportagem foi publicada depois que se recusaram a responder. O texto do PT, de resto, não oferece respostas às dúvidas que cercam as transações imobiliárias de Lula. Se o partido, estranhamente, recusa-se a prestar esclarecimentos, cabe à imprensa independente prosseguir na investigação.
Boletim nº 21 Série eletrônica
Setembro de 1998
© Instituto Gutenberg
Leia
mais
A defesa da Folha