O que há de novo na rotina da mídia: jornais apontam conflitos de interesses dos parlamentares e escondem os seus, rede de TV americana é condenada a pagar indenização de US$ 5,5 milhões, parentes são enfiados à força nas reportagens, jornal sério faz fofoca no primeiro caderno
Parlamentares e jornalistas
nas asas da Gratistur
A grande imprensa esbaldou-se ao flagrar uma viçosa
comissão de parlamentares (3 senadores e 16 ou 17 deputados) numa
mordômica viagem à Europa, patrocinada pela Federação
Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor) e Federação
Nacional das Empresas de Seguros (Fenaseg). Os parlamentares tiveram as
despesas pagas (classe executiva nos aviões, diárias de 380
dólares nos hotéis) para avaliar in loco como funciona a
regulamentação dos serviços de seguro na França,
Inglaterra e Portugal.
Os deputados e senadores embarcados na Gratistur das seguradoras pertencem
à Comissão Especial do Sistema Financeiro da Câmara
e à Subcomissão de Economia do Senado, encarregadas de regulamentar
o artigo 192 da Constituição que trata do sistema financeiro
e, dentro dele, do setor de seguros. Na prática, vão legislar
sobre os seguros privados, um setor de excelentes perspectivas ante a falácia
e a falência da Previdência Social. Estima-se (Veja, 19/2)
que esse mercado, atualmente, movimenta US$ 4 bilhões por ano.
Quando parlamentares viajam às custas de pessoas ou empresas
sobre cujos negócios vão legislar, instala-se
um inadmissível conflito de interesses. Ponto para a mídia,
portanto, por demonstrar a promiscuidade dos legisladores com os beneficiários
da legislação. Fiscalizar o governo e dizer aos cidadãos
quando ele não age no interesse público é uma das
funções mais nobres da mídia, aceita unanimemente
nas democracias liberais.
Seria de todo apropriado, no entanto, que ao publicar essas reportagens
a mídia brasileira também eliminasse seus conflitos de interesses
(leia no nº8, “Façam o que eu digo...”). A Gratistur de jornais,
revistas e TVs do Brasil é uma arcaica evidência de que segue
o brocardo “Casa de ferreiro, espeto de pau”. A primeira classe da Gratistur
da mídia são os cadernos de turismo, produzidos com reportagens
pagas pelo interessado. Hotéis, companhias aéreas, agências
de turismo simplesmente subornam as empresas de comunicação
— com passagens, quartos de luxo, mordomias — para que seduzam os leitores
com relatos inebriantes sobre cruzeiros no Caribe. Há casos mais
que acintosos, como páginas coloridas sobre um hotel que jamais
seria tão amplamente noticiado se o jornal tivesse que pagar de
seu bolso a viagem/hospedagem do repórter e do fotógrafo.
Quando isso acontece, e vê-se muito disso no Estadão, Folha,
Globo e Jornal do Brasil, estamos diante de um estelionato da notícia,
pois a “ notícia” só está nas páginas porque
alguém pagou por ela, e não foi o leitor. Alguns jornais,
a pretexto de transparência, passaram a dizer no pé dessas
reportagens: “O repórter viajou a convite da...”. Para que serve
esse habeas corpus cínico? Para o leitor dar um desconto do tipo
“Ah, se o hotel pagou então ele só podia elogiar” .
Aqui entramos no aspecto mais polêmico do conflito de interesses.
A ética utilitarista da mídia sugere que o patrocínio
do interessado não gera, necessariamente, reportagens a favor. Pode
ser. Da mesma forma, o fato de parlamentares viajarem às custas
das seguradoras não significa, necessariamente, que vão defender
os interesses delas na legislação. Mas esse argumento elide
a armadilha do conflito de interesse: a corda bamba em que andam os que
se proclamam honestos praticando desonestidades.
• Jornalistas de Brasília, só por serem jornalistas,
podem entrar de graça em oito cinemas da cidade. A “promoção”
foi negociada com os donos de cinemas pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Distrito Federal e anunciada no jornalzinho “nr Especial” como uma contribuição
“para o aperfeiçoamento da formação cultural da categoria.”
TV paga US$ 5,5 milhões
por dizer a verdade com fraude
A rede de televisão americana ABC foi condenada a pagar US$
5,5 milhões à rede de supermercados Food Lion num processo
de fraude para divulgação de notícias (leia no nº
12, “Câmera oculta, fraude à vista”. Dois produtores-repórteres
do programa Prime Time Live, Lynne Dale e Susan Barnett, empregaram-se
numa loja da Food Lion e, com minicâmeras ocultas, documentaram a
adulteração de prazos de validade de produtos vendidos aos
fregueses. O programa foi ao ar em novembro de 1992 com a denúncia
documentada de que o supermercado vendia mercadorias como carne com prazo
de validade vencido. As vendas desabaram nas 1.100 lojas que a Food Lion,
uma cadeia belga, tem nos Estados Unidos. O supermercado em nenhum movimento
contestou a veracidade das informações, mas argumentou que
os dois jornalistas, ao se empregarem na loja, mentiram, foram desleais
e conspiraram contra o empregador, de vez que legalmente eram pagos pela
Food Lion e na verdade estavam a serviço de uma rede de TV.
O júri reunido na Carolina do Norte no final de 1996 deu razão
ao supermercado e impôs penas simbólicas à ABC, com
base nos argumentos da Food Lion. Em seguida (21/1/97), julgou o pedido
de indenização de US$ 2,4 milhões, aumentando-a para
exatos 5.545.750 dólares. A decisão foi repudiada por jornalistas
americanos como um atentado à liberdade de imprensa, de vez que
a notícia divulgada pela ABC era verdadeira. A ABC, que pertence
à Disney, e tem os noticiários de maior audiência e
credibilidade entre as grandes redes de Tv dos Estados Unidos, anunciou
que vai recorrer contra a decisão do júri, por considerá-la
inibidora do jornalismo de investigação. “Esta sentença
deve preocupar a cada americano e, em particular, a cada jornalista interessado
na verdade”, disse o diretor de Jornalismo da ABC, Roone Arledge, citado
pela agência Reuters. Para o júri de cidadãos, no entanto,
não basta a imprensa divulgar a verdade; é preciso apurar
a verdade de acordo com a lei. Em outras palavras, jornalistas não
estão autorizados a cometer fraudes a pretexto de denunciar outras.
São Paulo tira a PM
da rota da TV
O secretário de Segurança Pública de São
Paulo, José Afonso da Silva, proibiu a PM de chamar jornalistas
ou combinar com eles ações policiais em que os suspeitos
são interrogados diante de câmeras de TV (leia no nº
12, “Cautela na pauta do repórter”). Programas como Na rota do crime,
da Manchete, acompanhavam batidas com privilégios espúrios
de agentes públicos. Como costumam fazer, com ou sem câmeras,
os PMs apareciam nesses programas invadindo residências, prendendo
pessoas sem mandado judicial e mesmo julgando-as sumariamente com acusações
de tráfico de drogas, por exemplo.
Os repórteres dos programas de TV usavam os policiais
como narradores da ação, que têm como vítimas,
em geral, pessoas pobres da periferia de São Paulo. “Só após
a conclusão da ação, o policial poderá fornecer
todas as informações aos jornalistas, mas sem emitir qualquer
opinião ou juízo”, disse à Folha de 1º/2 o capitão
Nicanor Galan Francês, diretor de Comunicação Social
da PM paulista. Os jornalistas poderão continuar, evidentemente,
a seguir a polícia e fazer reportagens enquanto um incidente estiver
acontecendo, embora seja hora de rever também a tolerância
das autoridades com carros de reportagens que trafegam nas calçadas,
passam o sinal vermelho e põem em perigo a vida de pedestres.
CPMF, calao de Átila
que não destrói a grama
Lembram da CPMF, o imposto sobre o cheque criado pelo governo para
financiar os gastos com a saúde pública? Quando estava em
discussão, no segundo semestre do ano passado, o imposto era descrito
pela elite da mídia como o cavalo de Átila. A CPMF iria arrasar
o Plano Real, sabotar a estabilidade da moeda, produzir uma inflação
astronômica. Analistas de algibeira ouvidos a mancheias pelos grandes
jornais e revistas semanais garantiam que, além de uma bomba de
nêutrons na economia, a CPMF era uma estupidez aritmética:
o governo iria perder dinheiro, pois a arrecadação prevista
seria inferior ao valor do aumento que o novo imposto provocaria na dívida
pública. O secretário do Tesouro, Murilo Portugal, demoliu
essa sandice (Leia no nº 10, “A conta conjunta da mídia com
os fabricantes de números”). Pois bem, eis um primeiro teste das
previsões, segundo reportagem do Estadão, em 27/2, dando
conta de pesquisa feita pela Confederação Nacional do Comércio
com 714 líderes de setor, entre os dias 23/1 e 19/2: “Impacto da
CPMF no comércio foi nulo”.
Glória ao erro na atração
irresistível pelo parente
Estadão e Jornal do Brasil glorificam o erro. Nas edições
de 24/2, ambos os jornais noticiaram a prisão de um irmão
do jogador Edmundo (leia no nº 11, “Parente não é notícia”).
“Edmundo tem irmão preso em Niterói”, disse o JB. “Irmão
de Edmundo é detido por agressão”, informou o Estadão.
Os dois jornais não dão a menor importância ao cidadão
Luiz Carlos Alves de Souza, de 23 anos, e pouco se importam se ele for
acusado pela polícia de espancar uma prostituta — o motivo de sua
prisão, no Rio, em 23/2. O que interessa a esses jornais é
divulgar um fato pífio que, sem o aditivo despropositado do parente
famoso, jamais seria publicado. Edmundo, muito competente para gerar suas
próprias notícias policiais, nada teve a ver com o episódio
para ser incluído na notícia.
Jornal sério faz fofoca
no primeiro caderno
O ex-casal Chico Buarque e Marieta Severo uniu-se para processar as
revistas Manchete e Amiga por conta dos mexericos, disfarçados de
reportagens, que davam conta da separação da dupla. Até
que Manchete não se desviou muito da linha amarela em que trafega,
mas, ainda assim, extrapolou com uma chamada de capa em que anunciou como
notícia exclusiva a separação dos artistas e apimentou
a fofoca com uma foto da cantora Daniela Mercury (ao lado de Chico e Marieta).
“O pivô? Daniela desmente”. Se desmentia, a revista admitia que estava
publicando uma mentira e não tinha porque enfiar a cantora na história.
(Os jornalistas mais experientes resolvem esses impasses com outro verbo:
nega). Os anúncios da edição publicados por Manchete
nos jornais diários ultrapassaram qualquer limite de mau gosto,
com um trocadilho infame baseado num dos sucessos de Chico Buarque: “Amanhã
há de ser novo dia!! Tudo sobre o fim de um dos mais longos casamentos
entre artistas.” Chico e Marieta cobram indenização de R$
1 milhão, por danos morais e invasão de privacidade.
A notícia do processo foi dada em nota de 10 linhas pelo
Estadão de 25/2 — o mesmo jornal que em 9/1 publicou no primeiro
caderno, reservado às notícias ditas sérias, reportagem
de 42 linhas e título em três colunas com o anúncio:
“Confirmada a separação de Chico Buarque e Marieta Severo”.
Que grande notícia de última hora para o primeiro caderno!
É curioso como a imprensa que se acha séria veste fraque
e cartola para revolver o lixo de pessoas famosas. A separação
do casal, destacado no meio artístico pela longevidade da união,
merecia uma nota de coluna para informação dos fãs,
e nada mais.
O Estadão, e jornais que se dizem sérios mas estão
sempre dispostos a se imprimir com tinta marrom, bem poderia levar em conta
um artigo do ex-editor e atual colunista do New York Times, Abe Rosenthal,
que o próprio Estadão publicou em 1995. O fecho do artigo
é um desabafo exemplar, transcrito neste boletim no nº 6 (“Invasão
de privacidade”), a propósito do assédio inclemente da mídia
à atriz Vera Fischer: “Não sou absolutamente um flagelador
da imprensa — passei toda a minha vida no jornalismo e abençoando
o dia em que comecei — mas não posso fingir não ver o que
vejo: o explosivo movimento nos jornais, revistas e TV rumo a uma forma
especializada de coleta de lixo, conhecida como fofoca.”
Boletim nº 13 Janeiro-Fevereiro de 1997
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