Bernardo Kucinski
Leiam com atenção esta proposta
de matéria:
"Paulo de Tarso Venceslau teria recebido ordens do ministro das Comunicações
Sérgio Motta de melar a imagem do PT, numa inteligente manobra para
livrar o governo Fernando Henrique da CPI da compra de votos. Paulo de
Tarso é um velho amigo de Motta e lhe deve grandes favores. Foi
Motta quem lhe deu emprego na sua empresa de planejamento Hidrobrasileira,
em plena ditadura, em 1975. No ano passado, após suas desavenças
dentro do PT, Paulo de Tarso teria conseguido um contrato de trabalho junto
ao governador Antônio Britto, aliado incondicional de Fernando Henrique,
e candidato à reeleição no Rio Grande do Sul. Comenta-se
que o jornalista Luiz Maklouf foi escolhido para a "operação
mela PT", porque parece sofrer de baixa auto-estima e periodicamente tenta
demonstrar que superou seu passado estalinista como dirigente clandestino
do jornal "Resistência", em Belém do Pará".
O que vocês acabaram de ler é um exemplo da arte brasileira
de difamar pela imprensa. Reúne algumas verdades, meias verdades
e várias mentiras protegidas pelo condicional "teria" e pelo anônimo
"comenta-se". Há outros truques, como o de mencionar um passado
"estalinista", de insinuar que o jornalista é um traumatizado, e
de inventar uma expressão "operação mela-PT". Como
se pode ver, a arte de difamar pela imprensa é essencialmente covarde.
Acusa sem assumir. O jornalismo brasileiro, tão deficiente em precisão
e em capacidade analítica, é mestre na calúnia, na
injúria e na difamação. Maklouf apenas incorporou
uma prática, consagrada em nosso jornalismo, de acusar sem assumir.
Eu acuso assumindo: Vejamos sua primeira matéria, matriz de toda
a campanha de difamação contra Lula e o PT, publicada no
Jornal da Tarde da segunda-feira, dia 26 de maio, sob o título garrafal,
fazendo da primeira página um pôster antipetista: "EX-SECRETÁRIO
DENUNCIA CORRUPÇÃO NO PT" (Leia
no site do Jornal da Tarde).
Primeira acusação: Não era matéria jornalística.
O principal critério de demarcação de uma matéria jornalística é a sua novidade. A notícia é uma construção social nascida de um fato novo de interesse público. Tem que ser um fato e tem que ser novo. Maklouf reproduziu as mesmas acusações de Paulo de Tarso já tratadas extensamente, com os mesmos detalhes, pela revista VEJA de quase três anos antes, na edição de 31 de agosto de 1994, em quatro páginas de matéria (de 28 a 31), pelos repórteres Mônica Bérgamo e Paulo Moreira Leite. A ausência de fatos novos permite-me acusar Maklouf e o Jornal da Tarde de terem tido intenção propagandística e não jornalística.
Segunda acusação: plágio.
Ao não se referir à matéria de Mônica Bérgamo e Paulo Moreira Leite, Maklouf cometeu também os pecados da apropriação intelectual e da apropriação jornalística. Outra tradição da imprensa brasileira é o roubo de matérias. Nesse caso, quem roubou primeiro foi o jornal Diário do Povo, de Campinas. Em 18 de maio, as repórteres Angélica Muller e Soraya Agége publicavam, sob o título "O segredo de Lula que o PT não quer investigar, a essência do que VEJA já havia publicado em 1993 e que Maklouf republicaria 8 dias depois no Jornal da Tarde. Também esse crédito foi omitido por Maklouf - seguindo o preceito de que "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão".
Terceira acusação: A falta de objetividade em razão de desonestidade jornalística.
A objetividade jornalística é um atributo do texto
final. Mas, para chegar a ela, além de possuir um estilo claro e
conciso, o jornalista deve procurar exaustivamente os fatos, manter com
eles uma relação de honestidade e saber hierarquizá-los.
Das declarações de Paulo de Tarso, conclui-se que:
- Em 1990, Roberto Teixeira tentou convencer a prefeitura petista de
Campinas a assinar um contrato de risco com a CPEM, mas mesmo sendo conhecida
sua condição de compadre do Lula, a proposta foi rejeitada;
- Ao conquistar a prefeitura de São José dos Campos,
o PT descobriu muitas irregularidades, entre as quais um contrato de alto
valor com a CPEM assinado pelo prefeito anterior, do PRN. Mesmo sabendo
que o irmão do compadre do Lula era advogado da CPEM, a prefeitura
petista sustou pagamentos à CPEM e denunciou os contratos;
- A mesma empresa ofereceu seus serviços à prefeita Luiza
Erundina, que também recusou seus serviços;
Qual deveria ser o fio condutor da matéria pelo critério
da objetividade jornalística? O de que o PT é incorruptível,
tanto assim que o advogado da CPEM, Dirceu Teixeira, conseguiu assinar
contratos com dezenas de prefeitura, mas nessas, do PT, não conseguiu,
apesar de seu irmão ser compadre de Lula. Apesar das insinuações
de que Lula gostaria de ver a CPEM favorecida.
A tortuosidade do texto de Maklouf, tentando provar o contrário
do que dizem os fatos do seu próprio texto, é uma característica
dos momentos mais sofisticados da imprensa brasileira, quando a objetividade
jornalística é sacrificada por motivos políticos.
Trata-se de uma forma complexa de mentir que exige muito engenho, pois
consiste em saber qual é a verdade, para poder conscientemente manipulá-la.
Implica numa relação desonesta do jornalista com a veracidade
jornalística, e portanto com o leitor e com sua própria personalidade
intelectual. O jornalista torna-se um agente da supressão da verdade.
Só conseguem isso os quadros treinados na arte do sofisma, como
Roberto Campos, ou na retórica estalinista, como Maklouf.
Quarta acusação: a manchete com instrumento da propaganda e da mentira.
Está visto que a manchete da matéria deveria ser:
"Prefeituras do PT resistem a tentativas de corrupção", e
não "Corrupção atinge prefeituras do PT."
De fato, quanto mais fortes e próximas da verdade forem as suspeitas
de Paulo de Tarso de que existe um esquema comandado por Paulo Okamoto,
de desviar dinheiro das prefeituras via contratos com a CPEM, mais importante
se torna o fato de que as prefeituras do PT mencionadas terem rejeitado
as propostas.
A distorção da manchetes em relação ao
conteúdo das matérias é um traço fundamental
da imprensa brasileira. Ocorre que a maioria do povo não lê
jornal, mas lê as manchetes penduradas nos pontos de ônibus.
Também os pauteiros da TV e os âncoras de rádio usam
intensamente as manchetes de primeira página. A primeira página
do jornal, e às vezes páginas internas e a última
página - são usadas pelos proprietários da imprensa
como um cartaz de propaganda de classe.
Muito eficaz, porque legitimado pela pretensa veracidade jornalística
que propaganda aberta não possui. Na série que se seguiu
à primeira "reportagem", foi intensamente usado o recurso das manchetes
distorcidas. Vistas no seu conjunto, essas manchetes produziam um quadro
assustador. "Denúncia revela um crime quase perfeito" diz o título
de matéria de Pedro Cafardo, que descreve o mecanismo de recálculo
do repasse do ICMS. O crime quase perfeito é esse tipo de cobertura
jornalística.
Quinta acusação: a má fé jornalística.
A partir da primeira matéria, todas as demais vão incorporando, com um refrão, variações da assertiva, nunca comprovada, de que a CPEM assessorou prefeituras petistas "num jogo suspeito de aumentar repasses da cota do ICMS que embutiram contribuições para o partido" (29/05, pág 3A). Mas é nos detalhes, nas pequenas afirmações que se vai manifestar a má fé jornalística: Maklouf diz em tom dramático que tem documentos comprovando "o trânsito livre de representantes da CPEM" na Corregedoria geral da Prefeitura de Santo André. O documento é um relatório no qual a corregedoria diz que convidou a CPEM para reuniões de explicação. Em outra matéria lança-se suspeita sobre a forma como Lula comprou seu apartamento "de cobertura", sem mencionar que entraram recursos de uma herança recebida por sua esposa, fato notório, que já fora abordado na campanha presidencial.
Sexta acusação: Maklouf praticou o linchamento jornalístico.
O linchamento jornalístico tem sido uma característica
dominante na imprensa brasileira dos últimos tempos: com alguns
rápidos toques de teclado foram destruídas reputações
inúmeras, desde os donos da Escola Base até doleiros de menor
importância, passando por adolescentes torturados para confessar
um crime que não cometeram - o do bar Bodega. Assim como negros
eram regularmente linchados nos Estados Unidos por uma população
branca feroz e recalcada, o jornalismo brasileiro regularmente sente a
necessidade de linchar, como forma de compensar a falta de espírito
crítico na cobertura regular e as deficiências de reportagem.
De repente, os irmãos Teixeira são corruptores, Paulo
Okamoto é corruptor, Lula é desonesto. E assim são
Celso Daniel, José Machado, José Augusto, e todos os prefeitos
petistas. O linchamento se caracteriza por não se referir a um crime
específico (qual foi o crime cometido por Lula?), por ter pouco
ou nenhum fundamento, por uma severidade de julgamento desproporcional
a eventuais falhas cometidas - e principalmente por negar o direito de
defesa e a mera possibilidade de o acusado ser inocente.
O mesmo tratamento não é dado pela imprensa aos grandes
banqueiros que levaram à falência o Banco Nacional ou o Banco
Econômico. Com estes, sempre se toma o cuidado de checar os fatos
duplamente, de qualificar acusação, de conferir e reconferir,
perguntar ao acusado o que tem a dizer em sua defesa. Com o Lula não
precisa porque ele é do povo. O linchamento pela imprensa é
o equivalente jornalístico da violência policial contra o
pobre. O policial prende pobre, bate e arrebenta - como em Diadema - para
só depois perguntar o nome, se a tanto chegar. Quando se trata de
um rico, ele pode até ser "detido, mas dentro do respeito e da lei.
E duas horas depois, surge seu advogado com o habeas-corpus.
Sétima acusação: o cretinismo jornalístico.
O cretinismo jornalístico, ou a incapacidade de raciocinar
logicamente, é outra característica do jornalismo brasileiro.
Não está claro se isso se deve a uma má formação
ou à mera preguiça de pensar. Nas matérias de Maklouf
também não está claro se isso se deve principalmente
à má fé. O fato é que está registrado
que a CPEM tentou mas não conseguiu contrato com a prefeitura petista
de Campinas. E só conseguiu o contrato depois que Jacó Bittar
saiu do PT, e entrou no PSB. Mas Maklouf não atentou para a conclusão
lógica desses fatos.
Mesmo depois de vetar contratos com a CPEM, Paulo de Tarso foi indicado
pelo próprio PT para a secretaria de Finanças de São
José dos Campos. Maklouf não entendeu o significado desse
fato.
A prefeitura petista de Betim contratou os mesmos serviços,
mas com outra empresa, a Ambiental. O mesmo se deu com a prefeitura petista
de Ribeirão Preto, que contratou com a empresa IDORT. A implicação
lógica desses fatos também passou despercebida a Maklouf.
Oitava acusação: a não contextualização.
É mau jornalismo não contextualizar a informação. Com os próprios dados que aparecem esparsamente nas matérias da campanha difamatória, seria possível fornecer ao leitor essa contextualização; explicar que as mudanças provocadas na forma de cálculo do Valor Adicional Fiscal (VAF) e a luta das prefeituras por uma fatia maior do ICMS a partir a Constituição de 1988, levaram grande número de prefeituras menores a contratar serviços especializados como os da CPEM, até conseguirem formar seus próprios quadros. E que somente a partir da Nova Lei das Licitações, de 1993, as contratações de serviços pelas prefeituras e outros órgãos públicos ficaram sujeitas a um ritual mais estrito de licitações.
Acusação final: a omissão.
De mais de trezentas prefeituras com as quais a CPEM assinou contratos
de prestação de serviços entre 1985, quando a empresa
foi fundada, e 1996, apenas 6 eram administradas pelo PT. Isso teve quer
dito pelo advogado Roberto Teixeira em nota pessoal, porque o repórter
foi omisso. O PT foi o partido com menor número de prefeituras com
contratos assinados com a CPEM. No outro extremo, 38 prefeituras administradas
pelo PTB, 34 prefeituras do ex-PDS, assinaram contratos com a CPEM. E,
mais: nenhuma das 115 prefeituras atualmente administradas pelo PT tem
contratos assinados com a CPEM.
Por que Maklouf e seus colegas de jornalismo não disseram isso
logo na primeira reportagem? Porque a intenção não
era informar corretamente, a intenção era "melar o PT."
Acuso e assino embaixo: Bernardo Kucinski
O autor é professor de Jornalismo Econômico na Universidade de São Paulo. Este artigo é uma versão corrigida do texto publicado originalmente no jornal PT Notícias, de junho de 1997.
Leia mais
Índice
