Centro de Estudos da Imprensa


    A diferença que faz

    A arte de ler no papel e ler na tela


    Marcelo Soares


    Geralmente leio jornais e revistas estrangeiros na internet. É mais cômodo, mais rápido e mais barato. Mas de vez em quando gosto de fazer a experiência de comprar uma revista que já li na internet para ver o que acontece. Fiz isso com a Economist da semana passada (a desta ainda não chegou, e já tem na internet a da próxima).

    A diferença é enorme. Li alguns artigos interessantíssimos, aos quais eu não havia prestado atenção na leitura na tela. O mesmo acontecia quando eu estava em São Paulo e achava o New York Times para comprar de vez em quando (em Porto Alegre, simplesmente não existe o Times). Lia muito mais, aproveitava muito mais.

    Mas por que acontece isso?

    Bom, a explicação mais óbvia é que é chato ler na tela --e acabamos ficando dispersivos. Mas lembrei de um estudo, feito pela Universidade de Illinois no Alabama há um ano, que dá pistas melhores sobre como isso acontece. Ele, em primeiro lugar, mostra que a gente pega mais notícias "importantes" quando estão impressas do que quando estão na tela.

    Eles observaram os hábitos de leitores exclusivamente da versão impressa e exclusivamente da versão online do New York Times:
    "Em um dia do estudo, as notícias 'de capa' responderam por quase dois terços das matérias lidas pela audiência impressa e somente 41% do que o grupo online leu. As diferenças nos hábitos de leitura, por sua vez, resultaram em diferenças significantes e substanciais no conhecimento dos leitores sobre questões públicas."

    Acha pouco? Pois os pesquisadores David Tewksbury e Scott Althaus vão mais longe:
    "As diferenças de seleção aparentemente têm a ver com as dicas visuais dadas ao leitor --ou com a falta delas. Enquanto um leitor de um jornal impresso encontra muitas dicas óbvias sobre a importância de uma matéria --onde ela está colocada na página, o tamanho do título, o comprimento do texto, por exemplo-- o leitor online, que geralmente encontra as matérias usando um índice organizado por categorias, tem menos dessas pistas --principalmente o assunto do item e a colocação relativa no índice."

    Mas percebam que geralmente a "colocação relativa" é desrespeitada. Os sistemas eletrônicos, como os usados pelas versões online do Correio do Povo e do Guardian, colocam os títulos em ordem alfabética, não de importância, dentro das seções.

    Os pesquisadores vão adiante:
    "Dado que a versão online reduz e reorganiza as pistas de saliência da matéria sobre a importância dos eventos, ela limita severamente a capacidade dos editores de controlar o que as audiências lêem. No balanço entre as pistas dadas pelo jornal e o interesse dos leitores, as notícias online parecem dar vantagem a este."

    Esse foi meu problema com a Economist. Tinha um obituário-resenha sensacional sobre um filósofo americano, que eu simplesmente não enxerguei por trás do desinteressante título "Nem todas as palavras precisam ser últimas palavras", que era o link para a matéria. Por trás de um link, a matéria pode ter dez ou dez mil linhas. Na página, é possível ver o peso dado à matéria (quase duas páginas, com uma fotona, no começo da seção "Books and Arts"). Sem falar na possibilidade de passar os olhos sobre algumas linhas para poder ser capturado por elas para começar a ler o texto.

    Essa história das dicas visuais é o ponto.
    Um problema que não se aplica à Economist, nem ao Correio do Povo, nem ao Guardian, mas pode afetar o New York Times, o Globo e certamente pega os sites de últimas notícias:
    "Os sites de notícias online muitas vezes dão proeminência a matérias de último instante, que no grande esquema das coisas acabam não sendo tão importantes. Apesar de isso ser uma questão sensível, dada a competição de redes de TV como a CNN e outros jornais online, isso pode afetar o que os leitores sabem ou não sobre os fatos realmente importantes daquele dia."

    O aviso dos pesquisadores:
    "Cuidado ao confiar muito no imediato como valor da notícia. Muitas vezes uma matéria sobe para o topo das páginas de notícias online porque é nova em folha. Nossos dados sugerem que as pessoas consumem apenas algumas matérias e, se esse consumo é ocupado por matérias fugazes, os leitores vão perder as histórias realmente importantes."

    Um outro estudo, este de William Eveland e Sharon Dunwoody, da Universidade de Ohio, dá mais pistas sobre a importância das pistas visuais: os pesquisadores dizem que o que o pessoal aprende com a página da internet depende muito de seu design ser familiar a leitores acostumados com a mídia impressa.

    "Aprender na Web é difícil, principalmente porque os leitores não podem dedicar atenção completa à leitura. Ao invés disso, eles precisam fazer decisões constantemente --que texto ler, que links seguir, quando rolar uma página. Eveland e Dunwoody sugerem que as páginas da internet podem tornar essas decisões mais fáceis se incluírem alguns elementos de estilo comuns na mídia impressa, como números de páginas e tabelas de conteúdo."

    De uma forma mais simples, o professor Eveland afirma:
    "Desde que aprendemos a ler, somos ensinados a nos movermos em um bloco de informação do começo até o final. Os artigos impressos são organizados de forma a não termos que tomar outras decisões enquanto lemos. Ao mesmo tempo, todos temos uma quantidade limitada de recursos cognitivos. Então, qualquer coisa que tome alguns desses recursos, mesmo para decisões simples, leva parte de nossa capacidade de aprender."

    Pra constar dos autos: é impossível imaginar uma faculdade de jornalismo brasileira fazendo um estudo útil e esclarecedor desse tipo. Lembro de uma vez em que uma professora da Ufrgs publicou um estudo em que ela analisava a significativa quantidade de uma semana de Estadão em 1992 e chegava à impressionante conclusão de que os jornais brasileiros não dão bola para os países do Mercosul. Justo em 1992, o ano em que chumbo alado voava solto nos Bálcãs...

    15/02/2002

Instituto Gutenberg

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