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Hipólito da Costa na corte de Dom João
Historiadores ainda discutem se o fundador do
Correio Braziliense
recebia dinheiro para livrar a cara do rei
Sotaques d'aquém e d'além mar
Manoel Carlos Chaparro
Jortejo Edições
O português Hipólito da
Costa (1774-1823) é considerado o fundador do jornalismo brasileiro
pela simples razão de ter chamado de Correio Braziliense ao periódico
que fundou em Londres em 1.º de junho de 1808. "Noticioso, político,
independente", segundo Juarez Bahia afirma no livro Jornal, história
e técnica, o Correio precedeu em três meses à Gazeta
do Rio de Janeiro, o jornal oficial lançado em 10 de setembro pela
Impressão Régia de Dom João VI. Estudiosos da imprensa
portuguesa, como José M. Tengarrinha, e da brasileira, a exemplo
de Nelson Werneck Sodré, consideram o Correio Braziliense como um
jornal português. É bem verdade que o jornalista gostaria
de tê-lo editado no Brasil: "Resolvi lançar esta publicação
na capital inglesa dada a dificuldade de publicar obras periódicas
no Brasil, já pela censura, já pelos perigos a que os redatores
se exporiam, falando livremente das ações dos homens poderosos".
Ao contrário do que muitos pensam, o Brasil não era o foco
principal do Correio: o jornal fazia um resumo analítico, com inspiração
iluminista, dos acontecimentos nas Américas e na Europa, e, se circulava
clandestinamente no Brasil, era lido em Portugal, também às
escondidas, como um jornal português no exílio.
Hipólito foi funcionário e inimigo do governo português:
de diretor da junta da Impressão Régia em Lisboa passou a
prisioneiro. Maçon, foi perseguido pela Inquisição
e detido de 1802 a 1804, quando fugiu para Londres. Até hoje os
historiadores percorrem a biografia de Hipólito da Costa para descobrir
como ele mantinha seu jornal. Há sinais de que o jornalista saudado
como um exemplo de combatente no exílio não era tão
independente. Se ainda persistem dúvidas quanto ao financiamento
do Correio Braziliense, é sabido que Hipólito da Costa foi
brindado com um cargo público, o de cônsul geral do Brasil
em Londres. Num livro recém-lançado em Portugal, o professor
luso-brasileiro Carlos Chaparro volta ao assunto. O livro de Chaparro,
colaborador deste boletim (leia seu artigo O jornalismo
não será reduzido a produto) intitula-se Sotaques
d´aquém e d´além mar - Percursos e gêneros
do jornalismo português e brasileiro e foi publicado pela
Jortejo Edições. Transcrevemos um trecho do capítulo
dedicado ao Correio, no qual Chaparro cita historiadores que põem
em dúvida a independência de Hipólito da Costa:
Pergunta essencial: quem financiava Hipólito
José da Costa?
Tengarrinha [José M. Tengarrinha, História da imprensa
periódica portuguesa] com números de Rizzini [Carlos
Rizzini, Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense], detalha
contas e conclui: para manter o projeto, que custava 1.212 libras anuais,
Hipólito precisaria de 600 assinaturas regulares, "número
excessivamente elevado". Depois de avaliadas e descartadas outras alternativas
sobre quem subsidiava o Correio Brasiliense, para o historiador português
"só resta admitir que o seu principal suporte tenha sido o próprio
governo britânico, interessado no desenvolvimento das potencialidades
que se lhe abriam com o contestado tratado de comércio firmado em
1810 com Portugal". Além disso, a maçonaria protegia Hipólito
da Costa, e por isso ele pôde permanecer na Inglaterra, apesar das
continuadas pressões diplomáticas de Lisboa para que de lá
fosse expulso.
Persistem, entretanto, dúvidas para as quais a bibliografia
contribui. E a principal delas está, exatamente, no tipo de relacionamento
que o jornalista mantinha com as Cortes do Rio de Janeiro.
As versões são contraditórias. Segundo Rizzini,
o governo do Rio de Janeiro chegou a fazer uma proposta para a compra secreta
de 500 exemplares de cada edição, exigindo, como contrapartida,
silêncio sobre temas e fatos incômodos, e divulgação
para que "pudesse ser útil ao aumento da agricultura, da indústria
e comércio do Reino e do Brasil". Mas o autor presume que o acordo
não se tenha consumado, porque o seu negociador, o conde do Funchal,
embaixador de Portugal em Londres, logo em seguida patrocinou o lançamento
do jornal Investigador Português em Inglaterra, subvencionado pela
Corte do Rio com 14 mil cruzados por edição, para "contrariar
a influência do Correio Brasiliense".
Dourado [Mecenas Dourado, Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense]
vai mais fundo na investigação dessa história de subvenções
escondidas ao Correio Brasiliense. E fala de Heliodoro Jacinto de Araújo
de Carneiros Alvelos, formado em Medicina, amigo de Hipólito, provavelmente
seu contemporâneo em Coimbra. Heliodoro prestou serviços de
ordem material ao amigo, principalmente para conseguir assinaturas e ajudas
financeiras para o jornal. "Com suas andanças de comissário,
naturalmente interessado, foi quem mais concorreu para seduzir e ajudar
Hipólito a negociar, não dizemos suas convicções,
mas as conveniências materiais do jornal, recebendo favores pecuniários
de D. João. Era ele, de qualquer maneira, o intermediário,
correspondendo-se em nome de Hipólito com os que podiam fazer aqueles
favores pecuniários e outros.
Pode-se pensar, então, que D. João, apesar de respeitado
por Hipólito (o rei nunca foi atacado ou desrespeitado pelo jornalista),
preferiu não arriscar e fechou um acordo com o editor do Correio
Brasiliense. Dourado revela que Heliodoro, em visita ao Brasil em 1812,
acertou com D. João uma subvenção de mil libras por
ano "para amaciar o seu jornal". Segundo o biógrafo de Hipólito,
o dinheiro saía dos cofres do Tesouro Real, passava pela polícia
do Rio, mais exatamente pelas mãos do seu intendente, Paulo Fernandes
Viana, fazia uma escala no Maranhão e era pago a Hipólito
pelos administradores da Real Fazenda, em Londres. Conta mais o autor:
no acerto, Heliodoro atuava como testa-de-ferro de Hipólito, tendo
como interlocutor o intendente da polícia do Rio, testa-de-ferro
do príncipe regente. E Paulo Viana também foi beneficiado:
após 1813, data em que a ajuda financeira começou a ser paga,
cessaram os ataques que o Correio Brasiliense lhe fazia e teve início
uma era de elogios à sua administração.
No detalhamento, escreve Dourado: "Recebendo, agora, a ajuda financeira
do príncipe, e depois do rei, a linha de conduta do jornal não
se precisou modificar. De resto, parece que D. João, se comprazia,
pelo menos tirava qualquer proveito da ação jornalística
de Hipólito, denunciando os abusos que ele, D. João, não
tinha força ou ânimo para reprimir. (...) D. João aceitava
conselhos progressistas contrários às opiniões dos
seus ministros, e permitia que, pelo Correio Brasiliense, se publicassem
essas opiniões como de sua autoria e vontade". Um exemplo: em Fevereiro
de 1820, Heliodoro revelava, em artigo, que D. João estava disposto
a realizar reformas radicais em prol de uma Constituição
para o Reino. E Viana recomendava a Hipólito, através de
Heliodoro, que o rei deveria sempre ser representado maior do que realmente
era, fazendo-o cada vez mais respeitável e conceituado. "E isto
Hipólito demonstrou com inteligência e desassombro".
Outra revelação de Dourado, ainda sobre a questão
do custeio do Correio Brasiliense: Francisco Gomes da Silva, o Chalaça,
amigo , secretário, recadista e alcoviteiro de D. Pedro, também
fazia as vezes de agente do jornal, conseguindo assinaturas e distribuindo-as
pelos subscritores. Os primeiros documentos que comprovam uma correspondência
entre Heliodoro e Chalaça datam de 1813. Não se sabe até
onde ia a influência de Chalaça sobre D. Pedro, que "crescera
e se informara, politicamente, ouvindo falar no Correio Brasiliense e lendo-o,
certamente levado por Francisco Gomes, a quem o ligava amizade sólida
e confiança nunca desmentida. (...) O alcoviteiro devia ser também
o de leituras proibidas, (...) tanto mais quanto, preparando-se politicamente
para o cargo eminente que deveria assumir um dia, D. Pedro não poderia
deixar de informar-se a respeito do ofício de futuro rei ou imperador.
E o Correio Brasiliense era, a este respeito, manancial de informações
de fatos políticos, como de sugestões teóricas."
Hipólito morreu no dia 11 de Setembro de 1823, na Inglaterra,
(de "infecção intestinal", escreve Dourado). Nove dias antes,
fora nomeado cônsul geral do Brasil em Londres. E seu nome figurava
entre os primeiros Oficiais da Ordem Imperial do Cruzeiro, instituída
depois da independência.
Se tudo é verdade, assim começou a imprensa brasileira.
A despeito das incertezas que a História guarda sobre a independência
política do primeiro jornalista brasileiro, não se permitem
dúvidas quanto à qualidade intelectual, política e
humanista de sua intervenção na realidade portuguesa e brasileira,
no curto período que a vida lhe concedeu para a ação
jornalística.
Foram 14 anos de produção jornalística de reconhecida
importância cultural e ideológica, numa época em que
na Europa crescia, para até quase ao fim do século permanecer
predominante, um jornalismo de discurso doutrinário, propagador
de idéias políticas ou religiosas, aquilo que Albertos chama
"imprensa opinante que responde a uma etapa histórica de partidarismos
e lutas ideológicas". É o período em que se consolida
nos jornais a forma discursiva do comment, o artigo.
Boletim nº 21 Série eletrônica Setembro de 1998
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do nº 21
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