O Império de papel - Os bastidores de
O Cruzeiro
Editora Sulina (051-226 3866)
Accioly Netto
Médico e, não menos importante, ficcionista, Accioly Netto fez carreira como redator-chefe de O Cruzeiro, a grande revista semanal do Brasil nos anos 50 e 60. Seu livro é um testemunho imprescindível sobre um dos momentos mais inquietos da imprensa brasileira. Narra o ápice e a decadência da publicação, desvenda segredos dos famosos jornalistas do país naquele período, como David Nasser, Jean Manzon, Ubirantan Lemos, Indalécio Vanderley, e pincela os bastidores de reportagens ainda hoje controversas. Uma delas imprimiu um disco voador nos céus na Barra da Tijuca no Rio. Trechos do relato de Accioly Netto sobre este spisódio, no capítulo "Pioneiros heróis e discos voadores":
Certa manhã, João Martins me informou
que uma figura estranha fora vista nas areias então desertas da
Barra, onde existiam apenas algumas casas de pescadores e um restaurante
para turistas. Tratava-se, ao que parecia, de um andarilho solitário
que muito se assemelhava a Adolph Hitler, supostamente vivo! Como [o
fotógrafo] Ed Keffel falava alemão, João Martins
sugeriu que fossem os dois averiguar se a história tinha algum fundo
de verdade, ou ao menos tentar fotografar o tal andarilho e procurar conhecer
sua história. Achei a idéia boa e concordei. E lá
se foram os dois.
Lá chegando, logo constataram que a história do andarilho
não passava de boato e que o suposto Hitler era apenas um pesquisador
de botânica, de nacionalidade holandesa. Diante disso, resolveram,
antes de voltar à redação, degustar uma caldeirada
de badejo acompanhada de generosas quantidades de cerveja. Terminando o
almoço, deitaram-se na areia, diante do mar, sob uma amendoeira,
para descansar um pouco.
Foi quando João Martins percebeu no céu azul um objeto
de formato estranho que se deslocava velozmente, parando de vez em quando
no ar para depois recomeçar a mover-se, sempre em alta velocidade.
Curioso é que não fazia qualquer ruído, embora estivesse
chegando cada vez mais perto de onde eles estavam. João Martins
levantou-se de um salto, já esquecido da caldeirada que lhe pesava
no estômago e gritou para Ed Keffel, apontando o objeto no céu:
- Ed! Depressa!! Fotografe aquela coisa!
Tudo aconteceu muito rápido. Ed Keffel, fotógrafo esperto
que era, focalizou o objeto que se aproximava cada vez mais e apertou o
botão da máquina, diversas vezes seguidas, sem tremer. Um
segundo depois, o objeto passava por cima deles, sempre silenciosamente,
até desaparecer por trás da Pedra da Gávea, enquanto
os dois observavam o céu claro do meio-dia, mudos de espanto. Era
um objeto grande, de formato circular, como dois pratos imensos de metal
prateado sobrepostos. João Martins ainda notou, quando o objeto
se aproximava, que nas bordas havia luzes nas cores verde e vermelha, que
piscavam.
Passado um primeiro momento de estupor, os dois saíram correndo
com destino à redação. Ainda na Barra da Tijuca, deram
uma parada em um botequim de beira de estrada e me telefonaram, em grande
excitação. João Martins me pediu para segurar o laboratorista
em plantão, pois tinham acabado de conseguir "algo extraordinário".
Logo chegavam, ambos cada vez mais empolgados. Ed Keffel tirou da máquina
o rolinho de filme e o entregou a Leão Gondim, que estava comigo,
sem explicar o que era. Esperamos nervosamente enquanto o filme era revelado.
Quando a porta do laboratório se abriu, correram para ver o filme
que acabava de sair do revelador.
- Saiu! - gritaram.
Corri para ver. Na foto, havia no azul do céu um ponto prateado,
que aumentava de tamanho a cada fotografia da seqüência. Posta
no secador, a película foi em seguida ampliada ao máximo.
Agora em tamanho maior, via-se nitidamente que o objeto tinha de fato o
formato de dois pratos de metal unidos pelas bordas, embora num primeiro
momento nem Leão Gondim nem eu estivéssemos entendendo do
que se tratava.
Só então Ed Keffel e João Martins nos explicaram,
ofegantes, que se tratava de um disco voador. Ao ouvir isto, Leão
Gondim disparou rumo à oficina de impressão, que se preparava
para rodar a revista e mandou parar as máquinas. Com as fotografias
na mão, ordenou ao diagramador que rapidamente armasse páginas
novas, tirando da revista duas reportagens. Em poucos minutos, foi feito
um caderno complemento de 16 páginas, sob a supervisão de
Ed Keffel, enquanto João Martins batia à máquina o
texto da reportagem. Todo o trabalho foi feito em algumas horas e, de madrugada,
O Cruzeiro era distribuído trazendo a matéria sobre o disco
voador. Em menos de duas horas, a edição estava esgotada.
Logo, a rádio Tupi começou a noticiar o acontecimento,
enquanto chegavam à redação de O Cruzeiro pedidos
e mais pedidos de outros órgãos de imprensa interessados
nas fotos, inclusive várias agências de notícias estrangeiras.
Depois disso, viriam ao Brasil especialistas e técnicos de observatórios
da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos, inclusive da NASA
e FBI. Uma minuciosa investigação foi feita com exames de
nossas fotografias. Foram tiradas também novas fotos no mesmo local,
em diferentes horas do dia. E o Observatório Nacional forneceu relatórios
sobre as condições meteorológicas, a direção
dos ventos e outros dados científicos sobre o dia em que o objeto
fora visto.
No início, pensava-se tratar de um hábil truque fotográfico,
ou mesmo de uma brincadeira de nossa parte. Cheguei a dar várias
entrevistas, contando e recontando o que me fora narrado pelos dois repórteres.
Ed Keffel e João Martins ficaram na berlinda. De minha parte, posso
afirmar que um profissional da fotografia com o nível de Ed Keffel
seria capaz de fazer um truque daqueles, mas, pelo que conheci de seu caráter
e seriedade, além de tudo o que presenciei naquele dia, acredito
sinceramente que ele não se prestaria a semelhante farsa.
Instituto Gutenberg
Boletim Nº 24 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 1999
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