O professor Leonardo Teodoro de Castro caiu três vezes em menos de uma semana. Caiu no assoalho do jato da TAM onde houve uma explosão, em 9/7; caiu três dias depois no meio da rua, atropelado por um ônibus e, já inconsciente numa cama da UTI do Hospital São Paulo, desceu aos infernos quando “a polícia” e a melhor imprensa do país o apontaram como o “principal suspeito” de detonar uma bomba no avião. A exposição de Castro no noticiário indica, mais uma vez, que desde o Caso Escola Base, a mídia mudou para que tudo continuasse como estava. A matriz do erro na escolinha infantil mantém-se inalterada: é o conluio entre fontes policiais muito tagarelas, atarantadas, às vezes rivais, e uma imprensa que não mede os efeitos dos torpedos que dispara contra suspeitos (sequer acusados, menos ainda indiciados) de crimes hediondos. Uma sussurra e a outra publica.
Neste episódio, a bem da verdade, “a polícia” tem se comportado um pouco melhor que a imprensa — justo a “polícia”, em geral retratada na mídia como invasiva e deselegante. Desde os primeiros dias da investigação, o diretor-geral da Polícia Federal, Vicente Chelotti, deixou claro que não iria acusar ninguém precipitadamente, para não repetir o erro cometido pela instituição com o ex-oficial de chancelaria Jorge Mirândola. Uma carta-bomba explodiu no Itamaraty em 3 de outubro de 1995 e horas depois o delegado Moacir Favetti estava diante das câmeras, no papel do sherlock mais rápido do mundo, acusando Mirândola pelo atentado. Uma semana depois, a própria PF descobriu que ele era inocente e por isso acautelou-se quando seguiu outras pistas: o delegado Alberto Laserre Filho negou-se a dar à imprensa o nome e um retrato falado do novo suspeito.
A cautela dos delegados ficou patente na reportagem de capa da edição nº. 1505 da revista Veja que circulou com a data de 23/7. “O misterioso Leonardo A PF o aponta como o principal suspeito de ter explodido a bomba no avião da TAM”, diz o título da capa. “O enigma Leonardo Exibicionista, fabulador e maníaco, o professor é agora o suspeito número 1 da bomba da TAM”, diz o título da reportagem na página 80.
Detalhe: em nenhuma linha da reportagem de 2.800 palavras aparece um delegado ou um contínuo da Polícia Federal afirmando que o professor é o principal suspeito de ter detonado uma bomba no avião. O texto é sustentado com declarações em off the record, do tipo “...diz um delegado da Polícia Federal”, ou com atribuições genéricas de atitudes. “Peritos” e “policiais” são muito citados, mas apenas um nome é fornecido ao leitor, o do delegado da PF Pedro Sarzi. Só que ele não aparece como fonte de informações da revista; é citado como interlocutor do professor Leonardo numa “conversa informal” na qual teria registrado contradições da testemunha.
É cristalino que a PF está investigando a vida do professor e o tem como suspeito de levar a bomba para o avião. O sinal de alerta teria sido dado no depoimento, quando, segundo o delegado Pedro Sarzi disse ao Globo (19/7), ele não explicou de forma convincente as razões que o levaram a São José dos Campos, onde embarcou no jato da TAM com destino a São Paulo. Veja não faz referência, para confirmar ou negar, ao fato de o depoimento ter durado seis horas. De um lado estavam policiais descansado, revezando-se nas perguntas. Do outro, um homem que tivera os tímpanos lesados pela explosão no avião e parecia alterado. Nas entrevistas na TV, o professor Leonardo pedia para não lhe filmarem o rosto e enrolava-se com as palavras.
Como era seu dever, a PF quis saber mais sobre Leonardo e obteve da Justiça um mandado de busca e apreensão para revistar o apartamento dele. Suspeitos, no entanto, existem alguns — tanto que a Polícia também revistou, com mandado judicial, as residências de outros três passageiros do Fokker, obviamente porque são suspeitos. Os nomes deles não foram divulgados.
A galeria foi inaugurada pelo engenheiro Fernando de Moura, o único morto no incidente. Durante uma semana, Moura ficou no noticiário como suspeito de detonar a bomba. Sua família protestou. Inocentado, o engenheiro deu lugar ao professor. Nos dois casos, os acusados pela via tortuosa do anonimato não puderam se defender: o engenheiro estava morto e o professor, em coma num hospital.
Lida e relida, a reportagem de Veja apresenta-se como um trançado de intrigas. Constrói a imagem de um homem desequilibrado (“exibicionista, fabulador e maníaco”), mas a única história comprometedora que apresenta é a de que ele teria exibido os órgãos genitais a crianças no bairro onde morou antes de se mudar para o apartamento atual. Isso não faz dele um aerobomber, como nada do que foi dito — nem mesmo sobre supostos produtos químicos encontrados em seu apartamento — elege-o como construtor de artefatos perversos para explodir um avião com pessoas a bordo.
No enovelado perfil que traçou do professor, Veja não publicou um A em defesa dele (em 22/7, o Estadão divulgou que Leonardo era considerado sério e dedicado no Senai, onde deu aulas de mecânica). Falam pelos cotovelos na reportagem da revista vizinhos e ex-vizinhos — fontes negativas universais. Um deles diz que o professor batia com uma vassoura no teto para reclamar do barulho, e a revista chama isso de “atitudes ranzinzas”, de resto tão comuns num prédio de apartamentos quanto o barulho inconveniente em prédio de apartamentos.
A revista diz que ele fez treze seguros de vida e que os agentes da PF encontraram um bilhete “que especificava a quem deveriam ser entregues alguns dos objetos pessoais do professor, no caso ´da minha falta´ ”. Não soube informar a data do bilhete — um dado essencial para datar a tese do suicida que a revista imprimiu. As esquisitices e exotismos do professor só indicariam que ele é esquisito e exótico, mas, desfiadas uma a uma, na direção da culpa, interligam-se num libelo.Uma co-irmã de Veja, a revista de negócios Exame, iludiu seus leitores com uma sopa de informações já superdivulgadas mas editadas sob a rubrica de “Exclusivo”. Tudo que saiu lá, com a mesma falta de cuidado, já saíra nos jornais, sempre sem atribuição específica da fonte, mas às costas grossas da “polícia”.
Coincidência ou não, a imprensa tornou-se cautelosa quando entrou em cena um superadvogado, Tales Castelo Branco, cuja figura aponta para processos de calúnia. Coincidência ou não, acendeu-se um sinal amarelo na imprensa diária. “PF não tem provas para indicar suspeito”, anunciou a Folha em 22/7. “PF não tem provas contra suspeito do vôo da TAM”, estampou o Globo, e encravou na notícia um pequeno editorial (“Nomes ao vento”), no qual recrimina apenas a Polícia Federal por entronizar o professor Leonardo como o principal suspeito de levar a bomba para o avião. “Falta de sigilo fere os direitos humanos”, deu o Estadão (23/7), em reportagem na qual juristas diziam à inglesa que a divulgação do nome do suspeito é uma ofensa ao Código de Processo Penal, um atentado à honra e aos direitos humanos. É muito bonito, mas, no Brasil, ainda não funciona.
Boletim Nº 16, Julho-Agosto de 1997
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