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Coice na Ética


Nota recusada no blogue de Nassif critica comentaristas que trataram a patadas o pedido de desculpas de um jornalista ético.

Sérgio Buarque de Gusmão

A nota abaixo foi escrita para o blogue de Luís Nassif, onde um pedido de desculpas do jornalista Ricardo Setti, por erro reparado com presteza e ética, foi recebido a coices por comentaristas tão despreparados quanto raivosos. Como a nota não foi publicada, a encaminhei a esta página ociosa e ao próprio Setti.

O massacre a que foi submetido o jornalista Ricardo Setti neste blogue emula os linchamentos histéricos cometidos pelas turbas ensandecidas. Na essência, não difere do "assassinato de reputação" intentado recentemente contra o dono do blogue por vozes que estão do outro lado da trincheira, mas se igualam no uso da guerra suja da infâmia.

[Estranhamente, o assunto está publicado em duas páginas no blogue de Nassif, aparentemente iguais mas de fato diferentes: aqui e aqui - e só nesta última aparece meu pedido de postar um comentário.]

Profissional brilhante, de retidão exemplar, tão generalista quanto minucioso, Ricardo Setti pediu desculpas em seu blogue na Editora Abril por ter dado curso a uma notícia falsa que transcreveu do jornal O Estado de S. Paulo. Foi linchado pela virtude em um ambiente repleto de defeitos.

A mim não importa, como jamais importou, que estejamos em campos ideológicos diferentes, ele alinhado com a oposição neoliberal e eu com o ciclo de governos democráticos e populares dos presidentes Lula e Dilma. Importa-me sua adesão ao Jornalismo como missão, sua paixão pela notícia bem-apurada e bem-editada, a acurácia com que tem revestido seu trabalho de décadas nessa profissão difícil, recheada de riscos e incompreensões. Se certa imprensa passa por um mau período no Brasil (nem na data do cabeçalho se pode confiar...), ao menos merece críticos que saibam identificar a grandeza de um pedido de desculpas por um erro cometido em boa-fé.

Chama a atenção que vários desses carrascos sumários escondam-se no anonimato. Parodiando o Dr. Samuel Johnson, é o primeiro refúgio dos covardes. Em conjuntura de amplas liberdades democráticas como a atual, o debate deve ser aberto, livre e franco, cada um respondendo pelo uso sagrado da liberdade de expressão sem ocultar sua identidade em pseudônimos ou nomes claramente apócrifos. Atirando das sombras, nada pesquisam nem apuram, não moderam nem ponderam, disparam pitacos como a mula desfere coices no ar.

Barbarizar Setti por transcrever notícia de jornal é o paroxismo da desfaçatez. O que antigamente se chamava jocosamente de "tesoura-press", hoje "c-v", é a principal fonte de abastecimento dos blogues. Convém notar que aqui também funciona a tribuna dos recortes: a esmagadora maioria das "notícias" transcritas são tiradas da mídia comercial, e não há evidência de que alguma passe por filtro de checagem. Nassif até criou a rubrica "Em Observação", mas dela escapa a maior parte das transcrições. Servem de mote para comentaristas ligeiros, com exceções luminosas como André Araújo, Renato Janine Ribeiro e outros, despejarem palpites mais pertinentes ao cais do porto, às arquibancadas ou aos botecos, territórios livres da selvajaria verbal.

Frequentemente cintilam barbaridades, como a série de invencionices acerca do projeto de reforma do Código Florestal (de pouco valeu sua moderação, Roberto Rogério Fratta), aceitas sem ponderação alguma. Mas quantas reses desconfiadas se apartam do estouro da boiada? Os mais eloquentes abraçam a clipagem do que chamam PIG tal e qual um muçulmano sobraça o Alcorão. Causa desconforto observar, como no apólogo de Machado, que a oficina em que Luís Nassif costura seu jornalismo elegante sirva de agulha para tanta linha ordinária.

12/05/2011