Jornalismo Comunitário - O que é afinal Caros companheiros. Sou jornalista e professora na Faculdade de Comunicação e Arte em Itajaí. Tenho acompanhado com bastante interesse os artigos e reflexões que vocês fazem sobre a mídia. É ótimo podermos dispor de um espaço como este numa profissão em que a discussão fica relegada a congressos ou eventuais encontros promovidos pelos sindicatos. Com o Instituto podemos estar sempre em dia com discussões fundamentais para o exercício da nossa profissão. Parabéns pela iniciativa.
Tomo a liberdade de enviar um artigo meu sobre Jornalismo comunitário que tem muito a ver com um olhar mais ético na nossa profissão. Se houver interesse gostaria de ver o texto na rede, ok? Tem a minha autorização para divulgar o meu e-mail para que outras pessoas interessadas em discutir o tema possam entrar em contato. Sem mais, agradeço.
Elaine Tavares E-mail: Agecom agecom@server07.npd.ufsc.br

Jornalismo Comunitário - O que é afinal
Para falar em jornalismo comunitário precisamos antes pensar o que vem a ser comunidade. Segundo o dicionário: qualidade do que é comum, sociedade, lugar onde residem indivíduos agremiados, comuna. Se é assim, então todo o jornalismo é comunitário, afinal um jornal é lido por centenas de sociedades, de indivíduos agremiados. Assim também a TV e o radio.
Então por que sempre pensamos em localidades empobrecidas quando falamos em comunidade? É simples, porque os povos oprimidos nas cidades e nos campos, depois de todo um processo, se reconheceram como pessoas em luta, juntas. Assim, comunidade passa a ter novo significado. Quer dizer, lugar onde as pessoas conspiram. Conspiram, respiram juntas, como diz Rubem Alves.
Comunidade hoje não é uma agremiação qualquer, é um lugar pobre, que as pessoas construíram com as próprias mãos e que tem uma organização articulada, seja por uma Associação de Moradores ou algo semelhante, que os unifica nos seus desejos. Comunidade é diferente de favela, lugar desorganizado, onde as pessoas sobrevivem. Comunidade é o espaço onde as pessoas se encontram dentro da cidade, lugar onde a gente se acha, acha nossas raízes. Viver em comunidade é apostar que é possível viver no encontro, na partilha, ao contrário do que nos remete a globalização, onde cada um vive no seu canto, em solidão.
Neste sentido, o empobrecido é o que mais vive em comunidade, porque ele esta no limite da condição humana e não pode viver sozinho. Ele precisa do outro para se apoiar e se construir. Assim, para nós, jornalistas estar em comunhão com estas comunidades não significa unicamente uma opção de vida, mas uma nova maneira de perceber o mundo, de ver o mundo onde estamos inseridos e de conceber o jornalismo.
Ovo voa? Depende de como o vemos. Se tivermos a delicadeza, a ternura de aquecê-lo, dele sairá um pássaro maravilhoso que nos levará na direção do infinito. A forma de olhar muda tudo. Pode ser só um ovo, frágil como um cristal, mas pode ser um pássaro, leve como um perfume. Ha coisas na vida que são muito delicadas, só percebidas pelo ocular do coração, diz o filssofo Newton Tavares.
Assim também deve ser encarado o jornalismo. Como uma forma de leitura do mundo em que a boca não fique prisioneira apenas dos olhos. Num fato dado, ha coisas que vão além daquilo que vemos. Um fato jornalístico não acontece por acaso, não surge do nada. Ha muito por detrás.
Wittgenstein dizia: daquilo que não se pode falar, cala-se. Pobre homem esse, prisioneiro dos olhos, incapaz de dar luz a uma estrela. Contra ele temos Umberto Eco: daquilo que não se pode falar, narra-se. Isso deve fazer o jornalismo, dizer o dizível e o indizível, ser capaz de ver o que está além dos olhos. Repito: nenhum fato acontece do nada, tudo tem uma causa e uma conseqüência.
Conta uma história egípcia que o homem quando morre é levado até a ante-sala do Deus supremo, onde só há uma balança com dois grandes pratos. Em um deles, uma deusa coloca o coração do morto. No outro prato, outra deusa coloca um pena de galinha. A condição para que o morto entre na glória eterna é que os pratos da balança não se movimentem. É isso que se espera de um bom jornalista, pois para dizer o indizível é preciso leveza no coração, capacidade de superar os preconceitos, capacidade para aceitar o outro como outro - não diferente, mas distinto - capacidade de entender a delicadeza da raça humana.
Jornalismo é serviço e neste sentido entendo que só exista dois tipos de jornalismo. O que serve a uma minoria e o que serve à maioria da população. Quando falamos em servir à maioria estamos falando em cons-piração (respirar juntos) com as comunidades oprimidas, em estar junto com a população nos seus mais secretos sonhos de amor. Esse é o jornalismo comunitário, aquele que conspira, que caminha junto, que se torna instrumento de transcendência, que dá visibilidade ao oprimido não como o marginal, mas como o pobre, real e capaz de superar sua condição. Na verdade, jornalismo é jornalismo. O que muda é o local ou os meios onde o praticamos.
É impossível um jornalismo neutro. Por mais que não queiramos, tomamos posição. Isso já vem da nossa formação. Temos acumulado dentro de nós uma série de valores, supostos e pré-supostos que vem à tona ao nos depararmos com o fato. Nem um acidente de automóvel pode ser retratado com neutralidade ou imparcialidade. Alguma coisa de nós vai fluir ao relatarmos o acontecimento. Então este é um ponto básico. Estamos nos revelando a cada palavra que escrevemos. A tal da objetividade não é apenas um postulado impossível, é impostor. Toda a verdade é subjetividade, dizia Kierkgaard. Assim, não temos que ter medo de tomar partido.
Ha um vínculo essencial entre o ver e o ser. Dependendo da quantidade e da qualidade da luz que sobre as coisas projetamos, assim também as veremos. Desta forma, por mais objetivos que queiramos ou devamos ser, sempre haverá, em todos os nossos juízos e relagues para com aquilo que nos cerca - o fato - um resíduo indelével do nosso próprio ser.
Um exemplo claro disso pode ser tirado de nossa própria vida cotidiana: se estamos tristes, por exemplo, é como se um véu se interpusesse entre o mundo e o nosso olhar. O sol inunda tudo com seu brilho mas nós vemos trevas, os pássaros cantam e nós não o percebemos. Isso significa que o homem não vê porque tem olhos, até porque há gente que tem olho e não vê mesmo. Na verdade, a natureza nos dotou de olhos porque na essencialidade, o ser humano é um visionário, capaz de ver com o sentimento, capaz de criar mundos nunca vistos, construir realidades jamais ocultadas, amar o que os olhos nunca percorreram e encantar-se pelo apenas vislumbrado, insiste Newton.
Ao fazermos jornalismo, seja onde for, temos que ter presente a necessidade de ver os fatos com o olhar da alteridade, contemplar as coisas na sua origem, na essência, pelo lado de dentro. É necessário que se estabeleça uma clareira entre o jornalista e o outro, distinto. Olhar o mundo com os olhos do amor é estabelecer uma relação intimista com os perdidos da história, os oprimidos. Mas não falamos daquela comiseração cuja filantropia é falácia e cuja benemerência é astúcia. Os excluídos não precisam de nossa miseração e sim do nosso respeito. Seus espaços não são lugares para o exercício da nossa piedade nem uma espécie de academia de musculação das nossas beneficências que, às custas de sua penúria, nos torne virtuosos.
Ocupar-se dos excluídos não é ter pena deles ou olhá-los em condolência, mas devolver-lhes, no mundo, o lugar que lhes é próprio e do qual foram expulsos. Isso faz o jornalismo produzido nas comunidades. Caminha com eles buscando as causas de seus desânimos e sofrimentos, recordando-lhes sempre de sua dignidade inviolável. Buscando a beleza, destapando, com pertinácia e persistência, os mecanismos e interesses que os deitam fora do mundo como se fossem dejetos e descobrindo novos modelos de convivência.
Mas afinal como se faz isso. O primeiro passo é desvelar o cotidiano. Quando você vive de uma determinada forma, não tem tempo de refletir sobre ela. O pobre, que vive no limite das necessidades humanas, lutando pelo pão do dia, não tem como chegar em casa, ao fim da tarde, e sentar na varanda refletindo sobre as coisas que fez. Não há tempo. Já sabemos que só refletimos sobre o nosso cotidiano quando nos afastamos dele. Quando ficamos de fora olhando para aquilo que fazemos todo o dia é que percebemos a tragédia ou a beleza de que é feita a nossa vida. Assim, ao percebermos o que somos é que tomamos decisões. Se bela é a vida, vamos continuar vivendo. Se trágica, vamos transformá-la.
A comunicação comunitária tem na comunidade o papel da arte. Deve revelar aos oprimidos a sua realidade. No Brasil temos um programa de TV que se propõe a isso. É o jornal Aqui Agora, do SBT, cujo mote é: a vida como ela é. Ali o personagem central é quase sempre o pobre, o excluído. Isso seria bom se eles mostrassem a vida como ela é de fato, mas não; o recorte que dão é o recorte da marginalidade reforçando estereótipos de que o pobre, o preto, é ladrão, bandido, assassino. O pobre quer se ver sim, mas na sua totalidade. Não apenas no lado marginal, que existe de fato. Isso o "jornalismo comunitário" deve resgatar: o homem comum, na sua luta diária pela sobrevivência. As formas de organização que encontra para viver no mundo. O pobre não é unicamente ladrão, ele é biscateiro, servente, pedreiro, papeleiro, faxineira, gari, doméstica, trabalhador. O pobre tem time de futebol, tem associação de morador, tem clube de mães, tem catequese, grupo de jovens, casa de cultura.
A vida pupula nas comunidades de periferia, os excluídos vivem em constante movimento se organizando para superar a condição de excluído e é esse movimento que o jornalista deve registrar. Se o pobre é ladrão, qual a causa disso? Ninguém é ladrão assim, por acaso. Isso não acontece do nada. Lembrem: todo o fato tem uma razão e uma conseqüência. Isso temos que mostrar se estamos fazendo jornalismo em jornal ou TV.
O jornalismo comunitário pode se fazer também nos grandes meios. O que esta em jogo não é o local onde o praticamos, mas a forma de olhar o mundo. Se estamos num grande jornal não estaremos falando para o povo todo, mas sim para uma minoria privilegiada que lê jornal. Aí, neste veiculo, nossas matérias devem tratar da organização dos excluídos num recado curto: olhem, o povo está em luta. Se antenem. Se é na TV então devemos mostrar o povo pobre como um povo que se organiza, que cria cultura, que luta para sobreviver. Quando o assunto é marginalidade devemos ter o cuidado de contextualizar essa marginalidade, que não surge do nada. Porque são marginais?
Já o trabalho na comunidade envolve muito mais coisas que um simples fazer jornal como muitos pregam. Nas comunidades empobrecidas o número de analfabetos é assustador e a comunicação deve beber em espaços alternativos. Quem se propõe a trabalhar com a informação nas comunidades deve estar preparado para se surpreender. Boa parte das vezes a própria comunidade já definiu suas formas de comunicação e este é o grande segredo. É preciso estar em sintonia com os anseios da população. É preciso, fundamentalmente, um novo olhar, de amor, de alteridade, de respeito. Isso, com certeza nos fará, não só melhores jornalistas, como melhores pessoas, capazes de transitar no mundo de uma forma mais digna.
A informação é tudo no mundo moderno, e um preconceito, um erro, pode botar uma vida a perder. A responsabilidade que temos, como manipuladores/mediadores desta informação é muito grande para que lidemos com isso de forma rasa. O mundo dos felizes é diferente do mundo dos infelizes, dizia Wittgestein. É com esta máxima que temos que olhar o mundo, sabendo discernir as diferenças, respeitando-as, tratando-as em pé de igualdade. Já escolher o mundo onde vamos querer transitar e fazer nosso trabalho, é opção de cada um...

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