O diário americano
State Journal-Register virou notícia ao omitir outra. Na edição
de 4/2, o editor Patrick Coburn avisou os leitores que o suposto escân-
dalo sexual do presidente Bill Clinton com a estagiária da Casa
Branca Mo nica Lewinsky fora extirpado das pá ginas do jornal. “Com
exceção desta coluna, você não encontrará
nenhuma referência a Lewinsky nesta edição”, escreveu
o jornalista de Springfield, no estado de Illinois, com a ressalva de que
não estava maluco, mas respondendo às críticas de
que os meios de comunicação exageravam na divulgação
do caso. A pequena obra de marketing do State Journal-Register simbolizou
a correção de rumo da cobertura que a mídia americana
deu ao chamado Zippergate.
O calcanhar-de-aquiles da melhor imprensa do mundo é seu apetite
caprichoso por escândalos. Se há sexo e político no
meio, não sobra nada frente. Crente de que tratava de razões
de Estado, a mídia pôs o foco no vaivém do zíper
presidencial e fez das fofocas do affair Bill e Monica um assunto de 1ª
página. Em favor da imprensa, registre-se que o caso deveria ser
noticiado, sobretudo porque há uma ação oficial por
meio de uma investigação anterior acerca de outra denúncia
contra as peripécias sexuais de Clinton, a de Paula Jones, ex-funcionária
do governo de Arkansas que cobra do presidente uma indenização
de US$ 700 mil por assédio sexual. Paula Jones passou a ser uma
aventura a mais quando uma amiga de Monica Lewinsky, Linda Tripp, entregou
ao promotor especial Kenneth Starr fitas em que Monica narraria detalhes
de supostas folias sexuais no mesmo Salão Oval da Casa Branca onde
outro presidente, sabidamente testicocéfalo, o aristocrata John
Kennedy, fez Clinton parecer um eunuco. Na glamurosa era Kennedy, contudo,
a imprensa tinha outras preocupações, e nenhuma mulher ousou
denunciar o presidente da República por uma proposta indecente.
Bill e Monica eram notícia, mas o descompasso da cobertura ficou
por conta da fofocagem e do “jornalismo investigativo” sem fatos e sem
fontes que muitos repórteres praticam nas coberturas competitivas.
Resultado: a antiga expressão “imprensa amarela”, recentemente só
aplicada aos tablóides, tingiu o conjunto da mídia americana.
A denominação remonta ao final do século passado,
quando o cartunista Richard Felton Outcault (1863-1928) criou no World
de Joseph Pulizter o personagem “Yellow Kid”, um garoto vestido com uma
túnica amarela que, por si só, nada tinha de sensacionalista.
Mas o desenhista foi contratado sorrateiramente pelo Journal, de outro
tycoon da imprensa americana, William Hearst, e os dois jornais engalfinharam-se
numa guerra de insultos que legou a expressão imprensa amarela —
no Brasil rebatizada como imprensa marrom porque, para nossos padrões,
amarelo é uma cor suave. O inocente “Yellow Kid” também virou
sinônimo de jornalista que inventa fatos para divulgar, papel brilhantemente
desempenhado por Kirk Douglas na pele do repórter Charles Tatum
no filme A montanha dos sete abutres.
Para contaminar na origem a cobertura desastrada, as primeiras notícias
surgiram num ninho de fofoca, a página na Internet de Matt Drudge,
um repórter amador especializado em soprar o lixo das celebridades.
Em17/1, Drudge divulgou que o repórter Michael Isikoff conseguira
para a revista Newsweek trechos das fitas em que Monica conta à
amiga Linda detalhes de sua relação com Clinton. Desta vez
Drudge dizia a verdade. Newsweek tinha a reportagem, mas resolvera adiar
a publicação para checar a veracidade e suas implicações.
Um trecho explosivo das fitas dava conta de que Monica, convocada pela
justiça para depor no processo de Paula Jones, fora orientada por
Clinton e seus advogados a negar que tivesse tido relações
sexuais com o presidente. E isso era o que ela mais gostava de contar.
“Eu vou negar, para que ele não se f..., mas quem vai se f... sou
eu”, ouve-se na fita. A página de Drudge passou a ser uma das 100
mais visitadas nos milhões de endereços que disputam um lugar
ao sol na rede de computadores. Logo borbulhavam na rede comitês
pró-impeachment de Clinton ou de defesa de Monica Lewinsky, venda
de camisetas com imagens eróticas e sites inteiramente dedicados
ao escândalo — com fundo amarelo, é claro.
A revista Newsweek aguardou a próxima edição para
dar a notícia que colhera com exclusividade, mas o Washington Post,
da mesma empresa, deu o furo na edição de 21/1, e a boiada
estourou. Naqueles dias, a imprensa cobria grandes assuntos, mas a histórica
visita do papa João Paulo II a Cuba e as ameaças dos Estados
Unidos a Saddam Hussein não tinham o fogo dos escândalos sexuais
na Casa Branca. Cada jornalzinho de subúrbio farejou seu próprio
subescândalo. Repórteres tão obscuros quanto Bob Woodward
e Carl Bernstein eram desconhecidos antes de Watergate, pareciam achar
que com uma fonte secreta (“uma ex-colega de Lewinsky na escola...”) e
um mexerico (“ela tem camisinhas na mesa de jantar...”) poderiam empurrar
Clinton para a renúncia tal como os dois jornalistas do Washington
Post fizeram com Richard Nixon em 1974.
O público, no entanto, encarregou-se de demarcar as diferenças
entre Watergate e Zippergate. Primeiro, havia uma nação em
crise, humilhada pela derrota no Vietnã, conduzida por um presidente
estadista no front externo mas escroque nos assuntos nacionais, um nação
que precisava purgar-se na penitência, a nação de Nixon.
Agora, a nação é a potência hegemônica,
próspera, dirigida por um jovem presidente sem brilho mas popular,
com trunfos internos que agradam aos cidadãos, como crescimento
da economia, emprego e redução da criminalidade em todo o
país, a nação de Clinton. Logo os jornalistas descobriram
que Clinton não era Nixon, Monica não era o Garganta Profunda,
e nenhum deles repetiria Bernstein ou Woodward. Quanto mais batiam, mais
atraíam a repulsa do público e faziam crescer o bolo de Clinton
— tanto que a popularidade do presidente alcançou os maiores índices
no auge da cobertura do Zippergate (79% de aprovação, de
acordo com pesquisa da rede de televisão NBC e do jornal Wall Street
Journal na primeira semana de fevereiro). Nenhuma pesquisa concluiu que
o assunto deveria ser abafado, mas todas revelaram que o público
considerava a cobertura exagerada (62% dos entrevistados, segundo enquete
da rede de televisão CBS; 72%, na CNN).
Políticos sabem mais que os jornalistas que quando as coisas
vão bem, as acusações passam raspando mas não
atingem o alvo. Os estudiosos da sociedade americana sabem que a privacidade
é um bem em alta no país (e nos tribunais...), e ganhou conotações
muito emocionais depois da morte da princesa Diana. E não existe
nada mais privado que sexo. O público, que sustenta os meios de
comunicação, sabe que adora escândalos — tanto que
jornais e revistas aumentaram a tiragem, e as TVs, a audiência no
auge do Zippergate.
Então, por que a cobertura foi rejeitada? A imprensa americana
exagerou no volume, na banalidade e na grosseria com que tratou o assunto.
Pesou na rejeição do público a terminologia do escândalo.
Pais já não podiam estreitar os laços com os filhos
explicando didaticamente, à mesa de jantar, o que é um grampo
telefônico, como os pais deles fizeram em Watergate; agora, tiravam
as crianças da sala durante o noticiário para não
terem de traduzir o que é sexo oral ou por que seria torto o pênis
do Bill. Em resumo, o público americano acha que Clinton prevaricou,
mas a imprensa não precisava pôr um sismógrafo no zíper
do presidente, sobretudo porque as acusações relevantes,
como a de que induziu Monica Lewinsky a falso testemunho, ainda estão
sob investigação — conduzida por um promotor que não
mede esforços para aparecer mais que o réu, não importa
se o réu é o homem mais poderoso do planeta.
Edificante na mudança de rumo, no entanto, foi o comportamento
autocrítico da própria imprensa. O órgão líder
da mídia americana, The New York Times, não deixou de cobrir
o caso — ao contrário, fez jornais como o State Journal-Register
retornarem ao assunto ao revelar, em 3/2, que Monica Lewinsky foi 36 vezes
à Casa Branca depois de ser transferida para o Pentágono.
Mas o Times pôs um olho no caso e outro na cobertura sensacionalista
dos concorrentes. Numa dessas reportagens, reproduzidas no Brasil pelo
Estadão (1/2), Carey Goldberg escreveu no Times: “Só raramente
tantos cidadãos e analistas se juntaram numa torrente de desaprovação
e até de repugnância — repugnância em especial pelo
modo como poucos fatos e como muitos mexericos e rumores entraram na cobertura
noticiosa e nas acusações a Bill Clinton”. Um dos entrevistados
do Times, Marvin Kalb, diretor do Centro Shorenstein para Jornalismo, Política
e Atividade Pública, disse: “Penso que seja talvez um dos mais tristes
capítulos do jornalismo americano”. O ombudsman do Washington Post,
David Broder, recomendou aos repórteres: “Contenham-se”. Num debate
na CNN, Jack Nelson, do Los Angeles Times, disse para o fofoqueiro Matt
Drudge, quando este refugiava-se na clássica alegação
de “sou apenas um repórter”: “Você devia ter pelo menos alguns
padrões de decência e lisura”. Uma pesquisa informal feita
pelo Instituto Gutenberg com profissionais que participam da lista de discussões
da Sociedade dos Jornalistas Profissionais dos Estados Unidos (SPJ) e do
IRE-Investigative Reporters and Editors, ambas na Internet, também
trouxe um resultado eloqüente. A pergunta era: a mídia americana
exagerou na cobertura do caso Clinton-Lewinsky? 96% responderam “sim”.
“Yes, yes, yes”, disse David Melmer. “Yes!!!!! and double yes”, disse Diane
Noland.
Depois do “não” do público, a mídia americana
virou o leme na direção da notícia, sobretudo das
inconfidências da equipe do promotor Kenneth Starr, e parou de dar
a palavra a todo mexeriqueiro que tinha uma historia picante sobre Clinton
ou Monica Lewinsky.
O caso está longe do fim, e pode até tornar-se uma batalha
sangrenta entre o presidente e a mídia. Clinton ganhou o primeiro
round, mas, paradoxalmente, na medida em que o inquérito da mídia
perdeu o formato sexual e ganhou contornos jurídicos, o presidente
ficou mais vulnerável. Os americanos não serão tão
compreensivos se ficar provado que ele seduziu uma estagiária de
21 anos e conspirou com os advogados para constranger a moça a mentir
num tribunal e salvar a pele dele. E aí vão aparecer muitos
Bernstein e Woodward para esfolar o presidente americano.
Para a imprensa brasileira, fica a lição de que é
possível intervir num erro enquanto ele está acontecendo.
Infelizmente, não temos um exemplo semelhante para oferecer em coberturas
exageradas como a da CPI-Collor PC, do caso Escola Base ou da morte de
PC Farias. Nesses três episódios emblemáticos, a mídia
cometeu erros de método proporcionalmente, no seu campo, tão
graves quanto os que denunciava — exageros, invenções, fofocas,
rumores não confirmados. A correção ficou para depois,
mas nunca houve no Brasil nada parecido ao que acaba de ocorrer nos Estados
Unidos. A razão talvez esteja no fato de que temos muitos tablóides,
mas nos falta um New York Times.
Boletim nº 20 Janeiro-Fevereiro de 1998
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