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Gutenberg
Longo caminho
Ombudsman de jornal-laboratório da UnB
viu fraudes de arrepiar
Fernando Paulino
Mais que qualquer outro veículo de comunicação,
os jornais-laboratórios pertencem aos próprios leitores,
por terem alta independência editorial e dose experimental. O Campus,
jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação (FAC)
da Universidade de Brasília, nasceu em novembro de 1970. Muitas
mudanças aconteceram com o passar do tempo: linguagem, diagramação,
periodicidade e equipes de trabalho. Atualmente, o jornal é coordenado
por três professores da FAC. As reportagens e os trabalhos de edição
e diagramação são feitos pelos alunos do bloco de
disciplinas Imprensa e Sociedade, Edição Jornalística,
Notícia e Mercadologia e Jornalismo Especializado, dirigidas aos
alunos do sétimo semestre do curso de jornalismo.
São produzidos cinco números do Campus em cada semestre
letivo. A partir da edição 226, de setembro de 1998, o jornal
começou a publicar a coluna do ombudsman, local direcionado para
as análises, críticas, sugestões e reclamações.
O ombudsman tem mandato fixo de um semestre e é escolhido entre
os membros do projeto SOS Imprensa. Ao receber a crítica, leva-a
para o repórter responsável pelo texto, depois para os editores
e, se necessário, questiona até as reportagens reclamadas
com os professores-responsáveis.
Fui escolhido para exercer a função no semestre passado,
inaugurando o serviço que está atualmente consolidado. A
discussão sobre o Campus começa no deslocamento de recursos.
Muitas pessoas dentro da universidade acham desnecessária a existência
do jornal-laboratório. Os críticos reclamam do custo e de
uma cobertura insatisfatória do cotidiano da UnB. A tiragem de 3
mil jornais é insuficiente para as quase 30 mil pessoas, dentre
professores, alunos e funcionários, que freqüentam diariamente
a universidade. Em alguns semestres, falhas na distribuição
dificultam ainda mais a circulação dos jornais entre alunos,
professores e funcionários.
Das cinco edições do semestre passado, analisei os quatro
primeiros números. Deixei o posto, por obrigações
curriculares, para poder assumir a função de repórter.
Centrei esforços em 16 casos, 8 encaminhados pelos leitores e 8
em que tomei individualmente a iniciativa. Dos dezesseis, selecionei cinco
casos para serem descritos e refletidos. Questões aparentemente
inocentes ou desimportantes, quando discutidas, podem prevenir possíveis
novos erros na produção jornalística.
1) Omissão e improviso
Por não ter uma redação estruturada fisicamente, não
ter periodicidade tão bem definida (acompanha-se sempre o calendário
vigente) e não contar com o compromisso efetivo diário de
todos os alunos matriculados nas disciplinas, acontece um dos grandes problemas
do Campus: o jornal deixa de noticiar fatos relevantes para a comunidade
universitária. A primeira queixa que recebi foi encaminhada diretamente
pelo reitor prof. Lauro Morhy, que criticou o suplemento sobre a 50.ª
Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), encartado na edição de agosto. A decisão mais
significativa do evento não foi divulgada: pela primeira vez a SBPC
decidiu a futura sede com dois anos de antecedência, a UnB vai abrigar
o 52.º encontro no ano 2000. A repórter disse não ter
obtido a informação. Os editores do suplemento reconheceram
a omissão e assumiram o erro do jornal.
2) Dois problemas políticos
1998 foi um ano eleitoral. O Campus não poderia se eximir da responsabilidade
de reportar ao tema, mas, por falta de cuidados na edição
de setembro, o jornal teve problemas com o filme fotográfico que
seria utilizado na reportagem e publicou uma fotografia montada de um candidato
a deputado distrital, ex-aluno da universidade. Na edição
seguinte, em suplemento dedicado às eleições, a repórter
dizia que o candidato ao senado, posteriormente o eleito, Luis Estevão
(PMDB-DF) "(...) tem fama de bom administrador, o que é cada vez
mais necessário para gerenciar um estado (...) um exemplo em requisitos
indispensáveis para avaliar se um político é bom ou
não (...)". Dois problemas: a) Segundo a Constituição
Federal, cabe ao governador a gerência executiva do estado. b) Ressaltar
qualidades de determinados candidatos pode ser válido, mas é
preciso deixar claro quais são os ditos "requisitos indispensáveis"
parcialmente descritos.
3) Clonagem
Um jornal-laboratório não precisa ser o local de mera repetição
do que vem sendo feito fora das faculdades de jornalismo. Deve ser um jornal
experimental e de encontro de novas modalidades de expressão. O
choque entre os defensores da cópia e os tentados a ousar estão
sempre presentes na redação. Muitos alunos em vias de se
formar encaram o trabalho no jornal como uma vitrine para a inserção
no mercado de trabalho. Sem problemas, a ordem natural solicita o início,
o meio e o fim. O ideal seria apenas colher os acertos, descartando os
vícios, mas infelizmente a idéia é seguida no inversos
por alguns futuros jornalistas. No final de agosto de 1998, os grandes
jornais da cidade (Correio Braziliense e Jornal de Brasília) envolveram-se
em campanhas por segurança, com reportagens sobre o pânico
dos moradores justificado pela morte violenta de jovens da classe média
brasiliense. Na mesma época, a redação do Campus foi
arrombada e o jornal noticiou o fato com destaque na capa: TERRA SEM LEI.
A foto não foi suficiente para as marcas de violência sofridas
pela redação. A reportagem entitulada Brasília vive
dias de terror e medo registrava uma sondagem que mostrava a preocupação
dos candangos com segurança: 58% dos 450 entrevistados não
confiavam na polícia, 66% tinham medo de andar a noite. Porém,
segundo o então secretário de Segurança Pública
Roberto Aguiar, entrevistado na última página do jornal,
os índices continuavam sendo os mesmos. O clima de insegurança
foi aumentado pela cobertura da mídia em casos isolados. Todos os
dados poderiam ser melhor cruzados e o Campus seguiu a tendência
dos grandes jornais, alarmando mais e informando menos.
4) Guerra conceitual.
Queixa encaminhada por um aluno do curso de História, relacionava
o velho problema do uso de termos surrados nos jornais. Na capa do Campus,
em manchete secundária: "(...) metade do eleitorado brasileiro vai
votar com tecnologia de primeiro mundo (...)". Com o fim do chamado bloco
soviético, é possível falar ainda em divisão
de primeiro, segundo e terceiro mundo na geopolítica mundial? Quais
são os critérios adotados para a aferição internacional?
Que país é o peso-padrão? O jornal investiu no chavão,
as comparações poderiam ser melhor explicadas.
5) Problemas fotográficos.
a) Para arrecadar recursos financeiros, a Universidade de Brasília
firmou acordo com a Petrobrás para a construção de
um posto de combustível dentro do campus universitário. Por
problemas na obra, a inauguração foi adiada várias
vezes. Contando com a boa-vontade dos funcionários do posto, uma
repórter do Campus produziu uma foto simulando um abastecimento,
certa de que a distribuição seria feita a tempo de o posto
estar em funcionamento. A inauguração do posto foi adiada,
o jornal foi distribuído e os leitores ficaram desinformados com
uma foto que não correspondia à realidade.
b) Em reportagens sobre novos cafés culturais da cidade,
dois repórteres foram fazer a apuração de tarde, horário
em que os estabelecimentos estavam vazios. Apressados pelo prazo de fechamento,
não hesitaram. Tornaram-se fotógrafos e fotografados, um
retratou a presença do outro nos cafés, como se fossem apenas
usuários, sem que houvesse algum tipo de esclarecimento posterior
no encarte.
Incentivo. Os problemas fotográficos (a e b) renderam
várias discussões na Faculdade de Comunicação.
Quando perguntados sobre a situação, os três envolvidos
nos episódios diziam que a opção foi dar uma foto
atraente, bonita. Porém, as montagens ditas inofensivas condicionadas
à estética fotográfica trouxeram a seguinte indagação:
se dentro do curso, sob vigilância universitária, foram criadas
estas situações, o que pode vir a ser feito com o diploma
na mão? É preciso muito cuidado com o curto limite entre
ética e estética.
Encerrei o trabalho com a satisfação de ver crescer uma
cultura crítica sobre o que vem a ser escrito nas páginas
do Campus e penso que os cuidados dos alunos-futuros-jornalistas aumentou
na apuração e reportagens atuais. Muita coisa ainda pode
ser feita para aumentar a qualidade do jornal. A publicação
de cartas e artigos, por exemplo, podem assegurar ainda mais a responsabilidade
com o leitor. A entrada do ombudsman no Campus conseguiu centralizar insatisfações
e sugestões para um jornal melhor, criando expectativas no público-leitor
e, consequentemente, aumentando a circulação. Sem dúvida
um espaço a mais para os leitores e um desafio a ser seguido pelos
demais jornais universitários.
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Boletim Nº 24 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 1999
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