Lúcio Flávio Pinto Instituto Gutenberg

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Jornal do jornalista

Lúcio Flávio Pinto

Aos 50 anos, 34 de profissão, o paraense Lúcio Flávio Pinto mantém há 13 anos o Jornal Pessoal, em formato tablóide, que tira 2 mil exemplares por quinzena e o sono diário do jornalista. Perde dinheiro, ganha inimigos, coleciona ameaças ao tratar dos assuntos da Amazônia. Vive de assinaturas e não aceita publicidade. Jornal pessoal é uma invenção, no Brasil, de José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, que em 1821 começou a redigir e publicar sozinho o Conciliador do Reino Unido. Pelo nome, vê-se que era um periódico do sistema monárquico. O jornalzinho de Lúcio Flávio Pinto baseia-se em experiência mais recente e crítica, um boletim editado nos Estados Unidos nos anos 60 e 70 por Isidore Stone, jornalista que fez seu jornal porque não encontrava na banca as notícias mais importantes do dia.

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O modelo do seu JP foi o I. F. Stone’s Weekly. Que diferença há entre executar um projeto desses em Washington e em Belém?
Washington é o melhor lugar do mundo para acompanhar e analisar o poder mundial. O semanário (depois quinzenário) de Stone, portanto, teve a melhor sede para uma publicação empenhada em colocar o discurso do poder americano de cabeça para baixo. Belém não é a capital do Brasil, que não é um país central, um inventor de ideologias ou um normatizador de ações em escala internacional. Belém ainda é, apesar dos pesares, a metrópole da Amazônia. Mas ela funciona apenas como intermediária das ordens despachadas da sede, dentro e fora do país. Não como a caixa de ressonância da vontade local, da inteligência regional. Fazer o curso inverso do discurso dominante é terrível, quase impossível. Tentei dar voz aos colonizados amazônicos durante os anos (17) em que trabalhei em O Estado de S. Paulo. O resultado foi bom, mas foi se enfraquecendo com o tempo. A imprensa decidiu assumir completamente a função colonial diante da fronteira amazônica, favorecendo os interesses dos colonizadores. Por isso, deixei a grande imprensa em 1988.
Quando Stone começou seu semanário, teve direito a tarifa postal especial (a diferença em relação à tarifa normal equivalia ao seu salário) e acesso a fundos, públicos e privados, que garantiam sua independência e a própria vida de seu pequeno grande jornal, ao longo de 19 anos. Já o meu, que recusa publicidade (constitui 80% da receita de uma empresa jornalística convencional) e vive exclusivamente de venda avulsa, é uma equação econômica inviável. Mantém-se desafiando a lei da gravidade financeira. Sei que vai cair um dia. Mas espero cair de pé, fazendo algo pelo qual terá valido a pena o sacrifício.

Por que os temas do seu jornal não aparecem nos grandes diários?
Em primeiro lugar, porque eles recusam tratar de temas considerados incômodos. Incômodos aos anunciantes ou aos aliados políticos, ou a ambos, numa linha fronteiriça que a promiscuidade tem eliminado. A grande imprensa paraense se negou a abordar o “rombo” no Banco da Amazônia, a maior instituição financeira regional, em 1987, porque a quadrilha era chefiada pelo então presidente interino do banco e procurador jurídico do maior jornal local, O Liberal, e porque entre os seus integrantes havia o irmão do superintendente de A Província do Pará e o dono do Diário do Pará, o hoje senador Jader Barbalho, dava apoio político a essa diretoria. E o rombo, equivalente a 30 milhões de dólares (valor da época), era 100 vezes maior do que o praticado na mesma época no governo da Pensilvânia, nos Estados Unidos, pelo secretário de Finanças. Pressionado pela imprensa local, ele acabou que se suicidando diante dos jornalistas, reunidos para ume entrevista coletiva. Todos puderam filmar uma das cenas individualmente mais chocantes do nosso século. A imprensa do Pará ficou convenientemente calada.

Outro exemplo: o assassinato, em 1991, de um membro de uma das mais tradicionais famílias de Belém, envolvido com o narcotráfico internacional, do qual era agente e “laranja”. Se cobrisse o caso, o que só o Jornal Pessoal fez, a imprensa poderia ter alertado em tempo a sociedade para a expansão do mundo da droga entre as camadas mais pobres da população e no núcleo do poder. Em segundo lugar, porque, infelizmente, a imprensa sabe cada vez menos sobre os fatos decisivos da agenda diária. E, quando sabe, sabe pela rama, não em profundidade. Investe-se muito em máquinas, imobiliza-se capital em tecnologia de ponta ligada diretamente ao produto, mas quase nada no material humano e naqueles escaninhos da retaguarda que dão solidez à informação, que asseguram a existência do empreendimento jornalístico como uma empreitada, antes de tudo, cultural.

E, por último, é espantosa a autocensura dos jornalistas, hoje. Muitos colegas se antecipam ao que pensa o patrão. Ou colocam na cabeça do patrão o que ele nem chega a pensar. Mesmo porque alguns dos patrões da grande imprensa só costumam pensar sobre cifrões, sem qualquer intimidade com a matéria-prima do jornalismo, a informação.

Nesses treze anos de Jornal Pessoal, quantas ameaças e quantos prêmios você recebeu?
Das ameaças, perdi a conta. Muitas são anônimas, feitas pelo telefone. Podem não passar de brincadeiras de mau gosto, do mais negro dos humores. Outras foram sérias. A mais grave delas, durante o primeiro governo Jader Barbalho. Pude imobilizá-la porque tinha boas informações sobre a sua origem, o que é vital para tratar com seriedade e competência a ameaça de morte, evitando que a reação leviana a banalize, fazendo o jogo do agressor. Mas foi durante as sucessivas matérias de denúncia sobre o assassinato de Bruno Meira Matos que me senti ameaçado. Era o único a publicar que não se tratava de crime comum, que na origem havia o narcotráfico, dar nomes aos bois e acusar os responsáveis pelas mortes, dentro do próprio círculo dele. Tentei dividir informações exclusivas com os colegas de outros jornais para pulverizar um pouco os riscos, mas ninguém quis nem saber dos fatos. Foi um dos momentos mais tristes da minha carreira. Quanto aos prêmios, em 1988 a Federação Nacional dos Jornalistas deu dois prêmios Fenaj (lançados naquele ano) ao JP, pela matéria inaugural, sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles, e sobre a sangrenta manifestação de protesto dos garimpeiros de Serra Pelada, além de considerá-lo o melhor jornal do Norte e Nordeste do país. Em 1997, recebi o Colombe d’Oro per la Pace, em Roma, na Itália, concedido pela Archivio Disarmo, uma ONG pacifista (outro premiado foi o deputado federal irlandês John Hume, que se tornaria no ano seguinte Prêmio Nobel da Paz). É considerado um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália.


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 34 Série eletrônica
Setembro-Outubro de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 17 - agosto de 2000

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