Os leitores foram surpreendidos, na
edição de 13/2, pela notícia “Lula
perde ação contra Jornal da Tarde”, no Estadão, e “Lula perde para o JT na Justiça”, no alto da 1ª página do Jornal da Tarde. A surpresa ficou por conta da informação de que o presidente de honra do Partido dos Trabalhadores estava processando o Jornal da Tarde por causa da entrevista do militante Paulo de Tarso Venceslau, publicada em 26/5/97, com o título “Petista revela esquema de corrupção no partido”. Na entrevista, de grande repercussão na época, Venceslau acusou Lula de participar, ainda que indiretamente, de um esquema de corrupção em prefeituras administradas pelo PT. Segundo as acusações de Venceslau, um compadre de Lula, Roberto Teixeira, emprestava uma casa para a moradia do líder político e usava a influência do compadrio para vender serviços da CPEM a prefeituras do PT.
Lula entrou com uma ação de reparação de danos morais, contra Venceslau e o Jornal da Tarde. O juiz Carlos Eduardo Ferraz de Mattos Barroso, da 20ª Vara Cível de São Paulo, entendeu que o jornal cumpriu seu papel de informar, e Venceslau o de denunciar um comportamento que ao juiz também pareceu impróprio para um homem público. A queixa foi considerada improcedente e Lula condenado a pagar as custas do processo, incluindo R$ 5 mil para cada advogado dos réus.
O episódio comprova, pela enésima vez, a péssima prática da imprensa brasileira de ludibriar o público na divulgação de processos judiciais de que são vítimas (leia no n.º 5, “Jornal omite derrotas e canta vitórias” e no n.º 15, “A notícia-abóbora e a notícia-cinderela”). Os jornais brasileiros raramente informam que estão sendo processados por causa de uma reportagem — exceto quando querem transformar o caso num trunfo político. Estadão e JT desdobraram o “escândalo petista”, mas em nenhum momento destacaram o processo de Lula. Informaram, no entanto, que Lula e outros dirigentes do PT estavam processando Venceslau. Em 20/12/97, o Jornal da Tarde, ao relatar audiência de um desses processos, informou que Venceslau estava sofrendo cinco ações de dirigentes do partido, mas omitiu aquela em que o jornal era réu.
A regra é divulgar as vitórias e omitir as derrotas nos tribunais. O passado indica, tantos são os casos de omissão, que se o jornal tivesse perdido a causa, os leitores do Estadão e do Jornal da Tarde jamais seriam informados da condenação. Os jornais do grupo Estadão têm escondido dos leitores derrotas sofridas na Justiça para o ex-governador Orestes Quércia — num dos processos, o diretor-responsável do Jornal da Tarde, Ruy Mesquita, foi condenado, em 1995, a três meses de detenção, mas o juiz Luiz Augusto de Salles Vieira converteu a pena em multa. No ano passado, o Estadão escondeu dos leitores que fora condenado, em primeira instância, a pagar 80 salários mínimos de indenização ao ex-senador José Paulo Bisol, mas, quando ganhou a causa em recurso ao Tribunal de Justiça, o jornal noticiou (23/5): “Bisol perde ação para o Estado”.
E mais:
Três jornalistas estão processando um diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Eduardo Ribeiro, Paulo Vieira Lima e Cecília Queiroz entraram com ação de indenização por danos morais, no valor de R$ 50 mil, contra Igor Fuser, secretário-geral da entidade. Fuser acusou os colegas, sócios da empresa Puente, de fazer “negócios sem ética” e “parcerias promíscuas” com o sindicato.
Boletim nº 20 Janeiro-Fevereiro de 1998
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