A imprensa e o caos da ortografia Instituto Gutenberg


A imprensa e o caos da ortografia


Nilson Lage

thumbTypesetr1.jpg - 4,26 K Marcos de Castro escreve um livro indignado com o estado de indigência a que chegou o idioma escrito nos jornais e falado na televisão. Seu relato - A imprensa e o caos da ortografia, São Paulo, Record, 1998 - tem o valor de testemunho: durante anos, ele tentou, no Jornal do Brasil e na TV Globo, conter o festival de besteira ortográfica e prosódica que assola os meios de comunicação, refletindo uma situação geral no país.

A questão começou com os nomes próprios: embora Luís, desde tempos remotos, seja com s, Artur com t, Manuel com u, Correia, Euclides e Moacir com i, Teresa com s etc, muitos decidem, por ignorância ou presunção – não se sabe de quê – registrar o nome dos filhos como Luiz, Arthur, Manoel, Euclydes ou Tereza. Se esses podem, também podem os pais do Haphonssous, do Rhodrygo e do Prodamorconjugoldejomélia - filho, naturalmente, de um apaixonado José (ou João, Joel, Jomar etc) e de sua apaixonada mulher Amélia , diz a anedota, concebido em leito coberto com lençol. Em cartório, no Brasil, até isso pode.

A regra não se aplica a Kubitschek, a Fritz, a Müller ou a Takamoto, porque, como todos sabem, esses nomes são estrangeiros. Mas se aplica a Arquimedes, a Mateus e a Jacó, que são nomes aportuguesados há séculos. Não impede que alguém se assine Archimedes, Matheus ou Jacob – nem mesmo Haphonssous ou Rhodrygo; diz a lei que cada qual poderá manter em sua assinatura a forma consuetudinária, isto é, habitual, de registro. Só não autoriza quem cita o nome a curvar-se ante tal excentricidade.

Mas que importam a lei e o acordo internacional firmado pelo Brasil, diante de um costume burro? Conta Marcos – e é verdade – que isso começou, na imprensa (pelo menos, na imprensa carioca) no Jornal do Brasil, quando a empresa cedeu ao então todo-poderoso General Golberi do Couto e Silva, que exigia ser chamado de Golbery. Outros poderosos – como Aírton Sena, que virou Ayrton Senna – ou prepotentes – como o juiz de futebol Mário Viana, que se proclamava "com dois n" – adoraram a novidade que, democraticamente, terminou estendendo-se a todos. A nova norma é simples: nome próprio "é pela ortografia antiga"–- embora ninguém saiba qual é a ortografia antiga e, em geral, se adotem soluções ortográficas sem pé nem cabeça. O problema é insuperável para os repórteres, obrigados a copiar letra por letra, em seus cadernos de anotações, as caprichosas combinações urdidas nos cartórios para escrever os nomes de milhares de queixosos, acidentados, policiais, bandidos ou políticos.

Passou-se, então, aos nomes geográficos. No paradigma lamentável de Bahia, Parati virou Paraty, Niterói Nichteroy, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro (que é estadual) virou Theatro, o Palácio Itamarati Itamaraty e Santa Luzia de Itanhi Santa Luzia de Intanhy. Amsterdam (dam em holandês se pronuncia quase como dame e quer dizer dique) virou Amsterdã, Argélia Algéria, Manilha Manila, Vietname Vietnã, Baviera Bavária, Galícia Galiza, Formosa Taiwan. Aí entrou a macaquice. Como a elite brasileira adora fingir que sabe inglês – até porque precisa justificar os anos e anos que pagou em cursinhos audiovisuais para aprender alguma coisa – a princesa Diana virou Daiana, a gravadora EMI i-eme-ai (embora a RCA não seja ér-ci-êi) e o tênis Nike náique. O condor, pássaro sul-americano cantado na poesia de Castro Alves – por isso dita condoreira – passou a ser côndor. A cidade espanhola de San Sebastián, onde se travaram muitos conflitos entre militantes bascos e policiais espanhóis, ganhou a pronúncia san sebástian – no paradigma de um velho tecnocrata mineiro, precursor da globalização, que se chamava Glícon (do grego glykís, doce, que deu, em português, entre outras, glicose) e, tendo vivido alguns anos nos Estados Unidos, adorava ser chamado de gláicon. Na esteira, vieram os cognatos: assumir (to assume) passou a ocupar o lugar de presumir ou supor; realizar (to realize) o de conceber; planta (plant) o de usina; afluente (affluent) o de próspero; eventual (eventual) o de final ou conseqüente; experto (expert) o de especialista etc.

E a pedantice acadêmica. Os goitacases, de tantas menções históricas, viraram os Goytacá, os tupis os Tupy, os guaranis os Guarany (assim mesmo, com maiúscula e sem plural). O núcleo de poder dos antropólogos, à falta do que fazer, entrou a exigir formas esdrúxulas como essas em nome de suposta exatidão científica.

Adotou-se o critério alienígena de chamar as pessoas pelo sobrenome, de modo que os nossos Juscelino, Ulisses, Tancredo e Fernando Henrique (que, suponho, não é bem nosso) passaram a ser denominados exoticamente de Oliveira, Guimarães, Neves e Cardoso - isso sem falar nos nomes femininos: nem a maestrina Chiquinha nem a psiquiatra Nise se reconheceriam sob os rótulos de Gonzaga e Silveira. Finalmente, chegou-se à sintaxe. O exemplo mais flagrante do limite a que leva a macaqueação da cultura superior não é mencionado pelo Marcos, mas me incomoda particularmente: é o costume, imposto pela imprensa paulista – em particular pela Folha de S.Paulo – de escrever a idade ao lado do nome do sujeito. Não pela idade em si, mas pela forma como é publicada: em lugar de usar "de tantos anos", como todo mundo diz em português, coloca-se apenas "tantos anos", o que só é possível em inglês porque, nessa língua, a idade é considerada um atributo ("x years old") e não algo que se tenha ou que nos seja próprio, como o genitivo português. Tentem ler, que fica engraçado: "Maria, 40; Juquinha, 7; Manoel, 24 ..." Parece bingo. Na mesma linha, o letreiro "ao vivo", nas transmissões de televisão, virou "vivo", porque os chimpanzés da Globo entenderam que assim ficava mais parecido com o live da televisão americana. E o verbo reverter, que é depoente (tem sentido passivo na forma ativa, "a renda reverterá para"), passou a ser conjugado em voz passiva, à semelhança do inglês to be reverted ("a renda será revertida para").

Soma-se a isso o caos do ensino básico. As professoras de primário e de ginásio são doutrinadas no curso normal e na faculdade a acreditar que a ortografia é uma besteira, que não se corrige o aluno (para não traumatizá-lo, coitadinho) e que, se um enunciado é compreendido, então ele é bom. Por esse critério, tanto faz dizer a um postulante inoportuno "vamos conversar mais tarde" ou "deixe de ser chato" - porque o entendimento, em ambos os casos, é o mesmo.

Dificilmente se encontra um professor de português que não considere corrigir redações dos alunos tarefa que excede a contrapartida de seu salário. Como não se ensina mais sintaxe, os regionalismos sintáticos se espalham livremente, na medida das migrações internas e do acesso a posições de mando. Vemos candidatos à presidência – o ex-metalúrgico, mas também o ex-sociólogo – dizerem que "acham de que", pensam de que", "pretendem de que" e "concluem de que". Se vamos à festa com a namorada, não vamos os dois, mas vamos em dois. Se viajo para Chapecó, não vou a Chapecó, mas vou ir a Chapecó. O resultado está nos quadros de avisos da Universidade: uma porção de consultores propondo-se a, mediante pagamento, "adaptar trabalhos acadêmicos às normas da ABNT" - que é a maneira eufemísticas de dizer que o anunciante se dispõe a corrigir os erros dos originais. Claro que, nesse contexto, não há mais erro – há desvios e flutuações – e a exigência de se escrever pela norma é tão sem importância quanto impor o tipo Times Roman ou o corpo 12 na composição das páginas.

Solidarizo-me com Marcos de Castro, jornalista que fez história na imprensa do Rio de Janeiro e católico progressista, biógrafo de Dom Hélder Câmara e tradutor da monumental biografia de São Luís, de Jacques Le Goff. Indicarei seu livro a meus alunos do curso de Jornalismo. Mas não me entusiasmo nem um pouco: primeiro, porque pouca gente, atualmente, preocupa-se com essas questões.

Estamos sós. Mencionar na academia autores como os que Marcos menciona – Antenor Nascentes, João Ribeiro – é condenar-se à pecha de obsoleto, o que não pega bem na nossa idade. Sei que a língua nacional é a expressão da pátria e o canal pelo qual a cultura escoa e se transmite no tempo. Mas quem se preocupa com a pátria, a essa altura da expansão do Império.


Nilson Lage é professor titular de Técnica de Redação Jornalística
lage@floripa.com.br

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Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

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