No que diz respeito à citação de uma reportagem que fiz - "Lula não registrou venda de terreno da mulher", publicada na Folha de S. Paulo, a 26 de agosto último - o artigo "Quando o acusado deve atuar como repórter", é um exemplo bem acabado de uma crítica da mídia baseada em contexto difamante e, portanto, apressado, autoritário e descompromissado com a ética e a boa técnica jornalística.
O comentário leviano e irresponsável sobre a frase-síntese de Tom Wolfe é a prova maior do que afirmo acima. Por mais que o conjunto do artigo fosse correto - o que absolutamente não é - não há justificativa para a grosseira e irada sentença com que "condena" os jornalistas citados, entre os quais me inclui.
A ir por esse caminho - adjetivos, adjetivos, adjetivos, justamente aquilo que pretende criticar - o artigo convida para uma troca de ofensas. Repilo-as, e recuso o baixo nível que propõe. Creio que neste ponto específico - "Os jornalistas que entrelaçam o contexto difamante prosperam na segunda opção" (a de destruir reputações) - o articulista deve desculpas a todos. Se não as conceder é porque está a praticar aquilo mesmo que condena - o que então já compromete, na essência, a seriedade do trabalho que está se propondo a fazer.
Crítica da mídia não é brincadeira - como estimo que este Instituto continue a saber. Quando extrapola, gratuitamente, de críticas concretas (certas ou erradas) para fazer julgamentos e aleivosias sobre o caráter de profissionais sérios - aí já não é crítica da mídia coisa nenhuma, mas apenas algo para se lamentar. Mais respeito, portanto.
A matéria que apurei e publiquei na Folha não se enquadra no conceito de "contexto difamante". É uma reportagem documentada, apurada à exaustão, e comprovadamente incontestável. Ela PROVA que Lula não fez o registro imobiliário de terreno que afirma ter vendido para comprar o apartamento de cobertura. Isso é um fato, comprovado em cartório.
Ou seja: um candidato a presidente da República - do qual o cidadão tem direito de exigir ética e transparência - diz que vendeu X para comprar Y. Descobri, como repórter, que a prova documental não confirmava essa venda. Fui ao candidato, insistentemente, com perguntas óbvias: Vendeu mesmo? Para quem? Quando? Por quanto? Onde está o documento que prova isso?
Lula recusou-se terminantemente a dizer qualquer coisa sobre o assunto - posição que aliás continua mantendo. Pediu direito de resposta e tomou na cabeça (o artigo não não informou isso, mas o PT perdeu no TSE, por 4 a 3). No caso concreto, a rigor, SÓ O LULA (ou alguém de sua confiança) pode dar explicações definitivas a respeito, à medida em que o negócio foi feito por CONTRATO PARTICULAR que só às partes pertence.
O que há de "contexto difamante" nesta reportagem? Ela INFORMA (documentadamente) que a venda do terreno não está comprovada. Ela INFORMA que um candidato a presidente da República se recusa a esclarecer as condições em que comprou um apartamento de R$ 189 mil, mesmo tendo todas as chances para isso. Ela INFORMA, portanto, que o candidato quer se eleger sem transparência, mantendo em segredo aquilo que teria obrigação ética de revelar, para não dizer legal (refiro-me ao artigo posterior de Walter Ceneviva).
Se o Instituto Gutenberg acha, como Lula, que o candidato tem todo direito de recusar-se a isso, é problema dos critérios éticos de Lula e do Instituto Gutenberg.
Para um jornalismo compromissado com a ética e com a boa técnica - é esse o jornalismo que eu faço, desculpando a modéstia - o correto é apurar, checar, contrachecar, ouvir o outro lado e publicar. Como se viu, depois de publicada, a matéria é absolutamente irrefutável.
O exemplo abstrato citado para cacifar o SEU sofisma - o do senhor João da Silva - é de uma pobreza, má fé e obtusidade gritantes.
Acontece, meu caro, o que o senhor Luiz Inácio Lula da Silva não era um simples traseunte a passar pelas ruas onde ficam o terreno e o apartamento. Não. Ele era (ou disse que era) o vendedor e o comprador. Não era a vítima. Era - e continua a ser - o candidato à presidência que se recusa terminante a esclarecer o negócio mais caro que já fez na vida, sem que até hoje se saiba exatamente como.
E aí, sim, sem sobra de dúvida, tem mesmo que explicar o como e o porquê - muito diferente do João da Silva, que nada tinha a ver com o peixe. O exemplo é deplorável e desonesto - volto a dizer.
O que a Folha e este repórter postularam a Lula, cansativamente, foi a exibição de documentos que comprovassem as operações que ele afirmou ter feito. Isso é objetivo, factual, correto, ético e jornalístico. Não tem nada de apressado, autoritário ou descompromissado com a ética e a boa técnica jornalística.
O que um repórter deveria fazer, obtida a prova de que não há registro imobiliário da venda que Lula diz ter feito - e que é absolutamente revelante para explicar a compra muito mal explicada do apartamento de 186 metros quadrados?
Deixar pra lá? Procurar o Instituto Gutenberg? Esconder a informação do público? Ou ir a Lula, claramente, insistentemente, e fazer as perguntas que precisavam ser feitas? Foi o que fiz. Onde está, afinal, o "contexto difamante", a "dúvida cavilosa", o "truque apropriado à brutalidade policial"?
Não recrutei este candidato a presidência - a quem você chama de "vítima" - como "repórter-auxiliar". É mais uma leviandade do seu texto. Obtive uma informação pronta e acabada - e aí sim o procurei, na mais comezinha das obrigações. A matéria, informativa e auto-sustentada, não levanta "dúvida cavilosa". Ela afirma, com todas as letras, que Lula se recusa a mostrar documentos que comprovem aquilo que afirmou. Isto é fato, é jornalismo de conteúdo para efetiva informação do público.
O problema deste seu artigo confuso e infeliz é, como direi, a presença de uma ingenuidade surpreendente e esquisita. Você acha, por exemplo, que "o partido permaneceu fiel à sua tática de calar para não inflar a intriga". Tsk, tsk, me engana que eu gosto.
Ora, a mídia entrou nessa história porque desde logo ficou claro que Lula e o PT que o apoia queriam (e continuam a querer) manter na clandestinidade as operações que resultaram na compra do apartamento de cobertura e nas relações entre Lula e seu compadre e advogado Roberto Teixeira.
Mesmo no caso do carro e da matéria da TV Bandeirantes - aquelas em que o PT obteve o direito de resposta - nada ficou esclarecido no que diz respeito às informações que estavam sendo cobradas do candidato à presidência da República. O que Lula fez foi choramingar contra a "perseguição da mídia" - de resto uma bazófia que só os muito ingênuos podem acreditar. No caso da matéria em questão, Lula e o PT que o apoia quebraram a cara no TSE. Quem sabe o próximo pedido de direito de resposta acabe dando entrada no Instituto Gutenberg.
28/09/98
Obs - Luiz Maklouf já não é repórter da Folha de S.Paulo. Foi demitido em 26/8, exatamente o dia em que foi publicada a reportagem "Lula não registrou venda de terreno da mulher", por ele assinada.
Boletim nº 21
Série eletrônica
Setembro de 1998
Instituto Gutenberg
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