A História correta da denúncia contra o PT, feita por Paulo de Tarso Venceslau, começou no dia 5 de maio quando a repórter Angélica Müller, do jornal Diário do Povo, de Campinas, procurou o ex-guerrilheiro da Aliança Libertadora Nacional para que comentasse o filme "O Que É Isso, Companheiro?".
Perguntado sobre a sua militância no PT, Paulo de Tarso revelou-se decepcionado com as acusações que fez por escrito à direção do partido contra Lula e que nunca havia sido apuradas. Nem a existência da carta era conhecida publicamente.
Duas semanas depois, após nova entrevista com Paulo de Tarso, desta vez com presença também da editora de Política, Soraya Agége, de checagens de rotina, cruzamento de dados e confirmação da autenticidade do documento, o Diário publicou a reportagem no dia 18 de maio, domingo, sob a manchete de primeira página "Exclusivo - Carta Bomba revela lado corrupto do PT". Em duas páginas inteiras, o jornal publicou a íntegra da carta e a entrevista com Paulo de Tarso.
O assunto ferveu no partido. Luciano Zica, deputado federal, disse que levaria o teor da denúncia à direção do partido e exigiria apuração, de acordo com o Diário de 19/5. A Comissão Executiva Nacional do PT, reunida em São Paulo, encarregou o seu presidente, José Dirceu, de nomear dois representantes para tomar conhecimento do assunto. "PT vai apurar denúncia contra Lula", manchetou o Diário no dia 20, terça-feira.
Oito dias após o furo do Diário, no dia 26 de maio, o Jornal da Tarde publica mesma denúncia, com a manchete "Exclusivo - Ex-secretário denuncia corrupção no PT".
A quem pertence a exclusividade da revelação da carta-denúncia? Ao Diário, tão- somente.. o problema é que o JT não poderia ter se apropriado indevidamente de um pioneirismo a que não fez por merecer sem explicar o equívoco em edição seguinte, providência que não tomou.
Discutir a ética do furo, porém, torna-se secundário se a questão a ser analisada for outra: o comportamento editorial do JT nas semanas seguintes em relação aos fatos ocorridos entre os dias 18 e 26 de maio, antes da publicação de sua matéria-exclusiva-que-não-é-exclusiva.
Nas cronologias que publicou vários dias sobre o caso, o jornal passa uma borracha na História, omite descaradamente que o PT já sabia do caso pelo jornal de Campinas e que já havia tomado iniciativas. Pior ainda: faz crer ao seu leitor que o PT se mexeu a partir das denúncias do JT. Estratégia editorial, claro, para exaltar o papel do jornal na história. Mas uma estratégia que passa por cima das regrinhas essenciais à saúde de uma notícia, onde ocorreu o fato e quando.
O JT foi o primeiro entre os grandões a tratar o episódio da carta-bomba. Teve o mérito de reagir na frente ao furo que tomou da imprensa regional. Não precisaria enganar os seus leitores.
A principal conclusão do episódio é o fortalecimento dos jornais regionais - e o Diário é apenas um entre dezenas- paralelamente ao comodismo da chamada grande imprensa. Se prevalecer a tendência, caminhamos para um equilíbrio de forma entre o poder econômico e editorial dos chamados jornalões e a nova e vigorosa imprensa regional, espalhada por capitais de todo o País e pelo Interior. No caso do Estado de São Paulo, Santos, Campinas, Santo André são alguns exemplos.
O Furo do Diário, plagiado oito dias depois pelo JT, mostra que está na hora de os pauteiros começarem a ler mais atentamente - há agora o recurso da Internet - o que se faz na imprensa fora do eixo Rio-São Paulo.
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Boletim Nº 15, Maio-Junho de 1997
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