No copioso noticiário sobre a nova lei de transplantes, era previsível que algum meio de comunicação reeditasse a macabra notícia do roubo de órgãos. Volta e meia o assunto estoura em algum lugar do mundo. É uma lenda aparentada ao fantasioso noticiário sobre homenzinhos verdes no céu e chupa-cabras na terra. A surpresa ficou por conta de quem se esborrachou na armadilha: o Estadão. O grande jornal paulista deu destaque exagerado e editou de forma irresponsável a bizarra história de uma garota cujo rim direito “teria sido extraído”, sem aviso, no Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo, a antiga Escola Paulista de Medicina. A notícia: L., então com 6 anos, foi internada em 1988 para tratamento de cálculos renais e saiu do hospital sem o rim direito. O médico M.M.M. nada informou à família. L. não voltou ao hospital e seu estado de saúde piorou. Dez anos depois, debilitada e ignorando a vilania de que fora vítima, a adolescente fez uma tomografia computadorizada numa clínica particular e o laudo atestou “ausência de imagem do rim direito”. O jornal identificou plenamente a garota, filha de um pedreiro e de uma dona de casa, e a mostrou numa foto de 14,5 por 11 cm.
Tudo era verossímil e potencialmente falso, escandaloso e duvidoso, mas o Estadão preferiu o caminho da convicção sensacional. “Garota teve rim retirado sem consentimento”, estampou (18/1) em manchete de página quase toda dedicada ao assunto. Embora o título fosse conclusivo, o texto da reportagem se amparava nas muletas da ressalva “teria sido.” No conjunto, porém, o jornal convencia seus leitores de que a extração não autorizada, e sequer comunicada, do rim de L. era fato indubitável. Onze edições depois, o jornal divulgou a verdade, numa notícia de tamanho proporcionalmente injusto — três colunas, não no topo mas no meio da página, abaixo de uma privilegiada reportagem sobre o começo do Ano do Tigre no Oriente. Sob a patética rubrica “Polêmica”, vinha o desfecho da fantasia: “Menina tem rim direito atrofiado” (29/1). Parecia outro caso, mas era o mesmo. Um verbo (“tem”) restabelecia a verdade e outro (“atrofiado”) confundia o leitor. O Estadão encerrava ali seu momentoso exercício de vampirismo jornalístico informando que uma tomografia mais precisa, feita no Hospital Albert Einstein, paga pela TV Record, comprovara que o rim direito de L. está no lugar, mas não funciona e mede apenas 4,5 cm, quando o tamanho normal deveria ser de 12 cm.
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Naquela semana, a garota doente era um joguete na mídia. O Estadão patenteava o furo com ares de promotoria (“O caso foi denunciado pelo Estado no domingo”), mas L. já aparecia na TV
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Entre o alarme falso e a verdade discreta, o jornal fez o assunto render. A principal fonte médica foi a nefrologista (especialista em rins) Maria Luiza Marcucci Chakkour, que atendeu L. num convênio. Ela disse que em setembro de 1997, ao receber a tomografia que atestava a “ausência de imagem” do órgão, telefonou para o Hospital São Paulo e ouviu de uma secretária a confirmação de que o rim fora extraído. Nova manchete de ponta a ponta na página: “Médica confirma retirada de rim de menina” (22/1). Mais tarde, a Drª. Chakkour admitiu que talvez tenha havido uma confusão de termos médicos. “Pode ser que a secretária tenha dito nefrostomia (colocação de sonda) e eu tenha entendido nefrectomia (extração do rim” (Estadão, 29/1). (O Aurélio define a incisão cirúrgica do rim como nefrotomia e não nefrostomia). Naquela semana, a garota doente era um joguete na mídia. O Estadão patenteava o furo com ares de promotoria (“O caso foi denunciado pelo Estado no domingo”), mas L. já aparecia na TV e sua mãe era orientada pela Associação das Vítimas de Erros Médicos. O jornal não tinha dúvida de nada ao relatar que a Associação recomendava à família de L. o prosseguimento do caso, com mais exames: “O objetivo é provar que a adolescente não tem o rim direito e derrubar a argumentação do hospital de que o órgão estaria atrofiado” (24/1).
Para demonstrar que os procedimentos estavam corretos, especialistas deram depoimentos enfáticos. Todos concordaram em que a tomografia computadorizada é o exame indicado para diagnóstico de ausência de um órgão. “Se uma tomografia indica ausência de imagem do rim é porque ele foi extraído”, disse a nefrologista Vitoria Woronick, que estava atendendo L. no Hospital das Clínicas. Nova reportagem: “Tomografia constata ausência de rim de menina”, foi o título (23/1), desta vez discreto, em uma coluna — mas também errado, pois se referia à propriedade e não ao resultado do exame. Uma opinião divergente, do médico Miguel Srougim, professor de Urologia na universidade acusada, foi confinada na seção Fórum dos Leitores. Como se veria depois, há tomografias e tomografias. Quando saiu o resultado do exame mais preciso, denominado tomografia helicoidal, o público leigo ficou sabendo o que alguns médicos deveriam ensinar e os jornais, mediar: ausência de imagem não quer dizer ausência de rim. Por que o órgão não apareceu no exame anterior? O jornal não se deu ao trabalho de esclarecer. O que tinham a dizer os médicos que garantiam a propriedade do primeiro exame? Nenhuma linha. Como a Drª. Chakkour pôde cometer erro tão primário ao telefone, confundindo nefrectomia com nefrotomia ? Não interessa aos leitores.
A lição do caso é que os meios de comunicação devem ser céticos com as notícias sobre extração de órgãos. Nove e meia em dez evaporam-se na fantasia em que foram geradas. O Estadão evitou a associação direta , mas, no imaginário popular, tais histórias são logo associadas ao tráfico de órgãos. As reportagens foram publicadas no conjunto do noticiário sobre a nova lei de transplantes, quando muita gente, à revelia do silêncio da mídia sobre os efeitos da lei que entrou em vigor em 1/1, correu às repartições públicas que expedem documentos para mudar a condição compulsória de doador presumido. O jornal juntou as pontas ao descrever as preocupações da mãe de L.: “Diante do caso da filha, ... mudou de idéia sobre a polêmica da doação de órgãos. Até julho, a dona de casa apoiava a prática, mas hoje tem medo dos médicos e desaprova a Lei de Doação Presumida.”
O noticiário sobre a nova lei deixou claro que há quem acredite que gente pobre é eviscerada em vida para que os órgãos sejam implantados em gente rica. Nessa moldura de horror, surge uma reportagem em jornal sério garantindo que Mengeles de hospitais universitários arrancam rins de criancinhas em cirurgias de meia hora e as despacham de volta para a periferia sem noção da mutilação que sofreram. Seria a notícia do ano se pudesse ser demonstrada, mas, segundo a Usia, agência de informação do governo dos Estados Unidos, não há um só caso comprovado no mundo. O assunto vai e volta, ora na forma de lenda oral, sem nomes, ora com tomografia computadorizada. A recorrência do tema impõe aos editores, portanto, um cuidado especial com essas notícias. Mesmo as histórias verossímeis que chegam à redação embrulhadas em laudos médicos merecem desconfiança.
O Estadão praticou uma série de erros graves que um jornal do seu porte não deveria cometer. É visível que o sensacionalismo dado ao caso repetiu uma antiga distorção da técnica e da ética jornalísticas, aquela em que a volúpia de publicar embaça a obrigação de apurar. Alguns pontos da cobertura merecem avaliação:
€ O primeiro erro do jornal foi não proteger L., vítima de uma doença renal, de um exame malfeito e de um vírus jornalístico que destrói as defesas imunológicas da acurácia e dissemina sensacionalismo nas páginas. Ao contrário, expôs a menina à morbidez do público num material detalhista e invasivo, cujo tom evocou a extinta revista O Cruzeiro e suas histórias escritas com muita pungência e pouca prudência. O nome, a foto, os sonhos, as decepções e o sofrimento de L. diante da certeza de que tivera um rim surripiado foram estampados sem cerimônia. “Deprimida, L. [nome por extenso no jornal] abandona seus sonhos” foi um dos títulos rapinantes da série (18/1).
€ O jornal agiu corretamente ao dar a notícia — baseado numa queixa à polícia e no parecer de uma médica especialista. Mas era caso para uma nota equilibrada, com um título que atribuísse a informação em vez de avalizá-la. Havia apenas uma acusação e uma suspeita fornecida pelo primeiro exame, não uma verdade transitada em julgado que amparasse a assertiva manchete de seis colunas garantindo que o órgão da garota fora extraído. No máximo, o título poderia ser — fazendo-o no mesmo tamanho — “Hospital é acusado de extrair rim sem aviso”.
. O Estadão errou, a seguir, ao descarregar nas fontes a culpa pelo mal-entendido, eximindo-se da responsabilidade de divulgar fatos com o destaque proporcional à veracidade do material apurado. Episódio tão delicado exige que o jornal volte às fontes e cobre delas a parte do erro a que foi induzido, para, em seguida, assumir o seu quinhão na trapalhada.
€ Errou, por fim, ao omitir um resumo conclusivo do caso, no qual seria conveniente admitir o procedimento jornalístico incorreto e pedir desculpas aos profissionais e instituições acusados e aos leitores. Na reportagem que encerrou o episódio, com o título “Garota tem rim atrofiado”, o Estadão agiu como se estivesse alheio à polêmica. Nessa nota fria no meio da página não foi impressa a patente “O caso foi denunciado pelo Estado...”. Mas a verdade que tirou proveito irresponsável de uma sucessão de erros de equipamentos e de médicos para fazer sensacionalismo com um assunto tão penoso para L. e a equipe da antiga Escola Paulista de Medicina. Durante dez dias, o médico M.M.M. viveu o papel de vampiro de rim de criancinha, instalado no respeitado hospital de uma das universidades mais sérias do país. O rim de L. continua no lugar, de acordo com a tomografia feita no Einstein, mas a credibilidade do jornal atrofiou-se a olho nu.
Repórter e fonte
no braço de ferro
A dificuldade de diálogo entre repór-teres pressionados pelo tempo e fontes reticentes ficou patente na série de reportagens do Estadão sobre o caso da menina L. Já na primeira reportagem, o jornal anunciou que o diretor-clínico José Osmar Medina Pestana primeiro confirmou e em seguida negou que o rim da garota tivesse sido extraído no hospital São Paulo. Segundo o relato da repórter Cristiane Seggato, Pestana atendeu-a ao telefone sem ter à mão o prontuário de L e admitiu que o rim fora extraído por causa de uma infecção e a família, avisada. Mas quando a repórter disse que esta informação não constava do documento de alta, o médico perguntou: “Não consta nefrectomia aí?” e em seguida, aparentemente já com o prontuário na mão, passou a defender “a posição oficial” de que o rim não fora extraído no Hospital São Paulo. Nos dias seguintes, as duas partes travaram o clássico diálogo de surdos: o jornal insistia na versão de que L. perdera um rim, e o hospital alegava que lá isso não acontecera.
A experiência mostra que tantos repórteres como fontes costumam jogar um braço de ferro nessas horas difíceis. A noção de urgência de cada lado é muito diferente. Os jornalistas nem se dão ao trabalho de apurar pessoalmente um caso tão grave — telefonam e acuam a fonte com a versão — no caso, uma acusação cabeluda — que têm em mãos, exigindo respostas rápidas porque o jornal sairá no dia seguinte. As fontes, ocupadas com seu trabalho, acuadas por um vendaval súbito, freqüentemente tentam se esquivar ou dar explicações genéricas. Em muitos casos, recusam-e a falar; em outros, falam o que não sabem. Na controvérsia sobre o rim de L., ficou patente que um pouco de boa vontade das duas partes faria o público desconfiar menos do jornalismo e dos hospitais.
Boletim nº 20 Janeiro-Fevereiro de 1998
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