Crimes II
Excesso e omissão
Denúncias aumentam crimes no Brasil e omitem nos Estados Unidos O Comitê de Proteção dos Jornalistas, organização com sede em Nova York, prestigiada por profissionais como o lendário âncora Walter Cronkite e a diretora do Washington Post Catharine Graham, foi criado em 1981 para zelar pelos direitos e denunciar abusos contra jornalistas em qualquer lugar do mundo. O CPJ produz um relatório anual com destaque para assassinatos e ataques a profissionais da imprensa – Mas só inclui incidentes relacionados ao exercício da profissão. Se um repórter briga no trânsito ou é assassinado pelo marido da amante, o caso, ainda que mereça repúdio e providências das entidades corporativas, não entra na lista do Comitê.
Por esta razão, o relatório do CPJ sobre as atrocidades cometidas contra jornalistas, a ser divulgado em 25 de março, omitirá a morte de dois brasileiros em 1998, o apresentador de TV Donizetti Adalto, em Teresina, e o fotógrafo Miguel Pereira de Melo, em Marabá, no Paraná. A morte de Adalto, candidato a deputado pelo PPS nas eleições de outubro, foi tramada por um amigo e colega de partido, o vereador Dijalma Filho, após desentendimentos na condução da campanha eleitoral. O fotógrafo foi morto em 5 de novembro por um homem ainda não identificado. As primeiras informações da polícia de Marabá, publicadas pelo jornal O Liberal, de Belém, davam conta de que o crime era passional, nada tendo a ver com o fato de Pereira ter fotografado dois anos antes os mortos da chacina de Eldorado de Carajás. Como em dezenas de milhares de crimes cometidos no Brasil, sem distinção de categoria profissional, a polícia local não faz investigações para prender os assassinos.
Em 10/2, o Estadão embarcou na rota do piloto automático do Instituto Internacional de Imprensa, com sede em Viena, cujo relatório sobre violências de 1998 inclui Adauto e Melo como vítimas da vítimas da liberdade de imprensa no Brasil:
"Quatro profissionais - Manoel Leal de Oliveira (Bahia), José Carlos Mesquita (Rondônia), Donizete Adauto (Piauí) e Miguel Pereira de Melo (Pará) - foram mortos no ano passado. O fotógrafo Miguel Pereira de Melo era uma das testemunhas no processo que vai julgar os policiais militares suspeitos de matar, em abril de 1996, 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado de Carajás (PA). Ele morreu depois de receber cinco tiros em 5 de novembro e até agora o inquérito não evoluiu", diz o relatório do Instituto.
Melo não era testemunha no processo.
A inconsistência destas listas conjuga-se com a falta de varredura sobre o vasto, violento território dos Estados Unidos. Jamais há menção a um ataque ou assassinato de jornalistas naquele país - nem sequer em briga de trânsito. Relatórios que recuam no tempo, como costuma fazer a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), ora começando em 1993, ora em 1975, sempre omitem os americanos. O informe anual do instituto austríaco sobre 1998 refere-se a erros e fraudes cometidas por jornalistas.
O último assassinato destacado de um jornalista nos Estados Unidos foi o de Don Bolles, repórter do Arizona Republic, em 1976. O CPJ não monitora a violência contra a imprensa americana. "Nossos recursos são limitados, e dedicamos a maioria de nossos esforços aos países onde os jornalistas precisam de apoio e proteção", explica um relatório da entidade.
Ainda assim, o Comitê menciona num informe que desde a morte de Don Bolles, "pelo menos onze outros jornalistas americanos foram assassinados por causa de seu trabalho. Com a exceção de um caso, as vítimas eram jornalistas imigrantes que trabalhavam em idiomas diferentes do inglês. Sete desses 10 homicídios permanecem insolúveis". Em 1993 o CJP preparou um relatório de 60 páginas sobre os crimes. O Departamento de Justiça reabriu cinco casos, mas nenhuma das mortes foi esclarecida.
©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 24 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 1999
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