Contrapauta
Anotações de leitura
Ao passar a vender a concessão de canais de TV e freqüências de rádio, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso criou um sistema não menos discutível que o anterior, baseado no clientelismo do governo e do Congresso. Antes, os amigos do poder eram selecionados para ganhar as emissoras. Pelo novo sistema de leva quem paga mais, só os grandes grupos econômicos têm acesso a rádios e televisões. Um novo canal de TV na cidade paulista de Mogi das Cruzes foi arrematado por R$ 3,2 milhões – com um ágio de 1500% sobre o preço mínimo de R$ 200 mil fixado pelo Ministério das Comunicações. O governo transformou um serviço público em mercadoria só acessível aos ricos. Uma ONG preparada para criar um novo modelo de TV não pode entrar nesse leilão. Do mau ao ruim
Lembra do escândalo dos poços artesianos, construídos pelo extinto Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS) em propriedades particulares? Um dos beneficiados foi o deputado Inocencio Oliveira, líder do PFL. Por ser um político, e, como segundo defeito, nordestino, o parlamentar ficou estigmatizado na imprensa. Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso organizava a reforma do ministério, no final do ano, mencionou-se a possibilidade de Oliveira ganhar um hipotético Ministério dos Recursos Hídricos e não faltaram lembranças do episódio do poço artesiano furado em uma fazenda do deputado no município pernambucano de Serra Talhada. Inocencio, Globo e Abril
A mídia não esquece e, insuflado pela mídia, o público não perdoa. Em 5/11/98 a seção Fórum dos Leitores do Estadão publicou quatro cartas de irônicos leitores. "Ah! Ah! Ah! Desculpem-me as exclamações, mas não posso conter o meu riso! Inocencio Oliveira – o dos poços artesianos – recebeu convite para ser ministro dos recursos Hídricos", escreveu com boa verve o leitor Roberto Cera, de Piracicaba (SP).
Todos omitem, no entanto, as duas grandes corporações jornalísticas, com faturamento de centenas de milhares de dólares, beneficiadas pela irregularidade: Rede Globo e Abril. O DNOCS furou poços para ambas, em seus negócios no Nordeste, mas sempre que o assunto é mencionado o nome das empresas é convenientemente ignorado.Sophie Rhys-Jones, noiva do príncipe Edward, corre o risco de ser tomada como substituta da princesa Diana na imprensa de fofocas e na imprensa séria que reproduz as fofocas. "Noiva assemelha-se fisicamente a Di", notou o Estadão (7/1), num título de cinco colunas, sinalizando o futuro noticiário dos tablóides ingleses, hipocritamente condenado mas religiosamente copiado pelos grandes jornais brasileiros. Lady So
A proteção de vítimas de crimes continua a ser feita de acordo com a cara do freguês. É assunto delicado, que exige um protocolo ético da mídia. Vejamos, por exemplo, o critério da Folha. Em 11/12/98, o jornal divulgou que 163 pessoas foram vítimas de terrorismo epistolar por parte do galerista Fábio Cimino. Com o pseudônimo de Pedro Pedra, ele mandava cartas simulando ser um amigo antigo das pessoas. Um dos destinatários sentiu-se ameaçado por certos termos, procurou a Polícia e Cimino foi identificado. O jornal publicou o nome de algumas vítimas – um cantor de rock, um publicitário, um artista plástico, um editor e um psiquiatra. "Dois banqueiros (que não quiseram se identificar) estavam entre os destinatários das cartas...", disse o jornal. A rigor, os banqueiros não quiserem ser identificados, a menos que o jornal tenha falado com desconhecidos. Na questão ética, banqueiro ganha a proteção devida quando é vítima e não quer o nome no jornal. Banqueiro anônimo
Negócios paralelos fatalmente influem no noticiário. O Estadão confirma a regra ao omitir-se sobre o mau desempenho da sua sócia BCP na exploração da rede de telefones celulares digitais em São Paulo. O jornal noticia a mancheias os (escandalosos) problemas das concorrentes Telefônica e Telesp, mas não dá destaque ao infortúnio que a BCP tem causado aos usuários dos celulares, como cobrança de linhas gratuitas e falha do sinal em bairros como o Morumbi e Jardins ("Sem serviço", lê-se num aparelho que deve ser usado com a boca e os ouvidos). Tais irregularidades são lidas na Folha e foram abundantemente denunciadas pelo Jornal da Band, quando lá estava o âncora Paulo Henrique Amorim. Está para sair no Estadão um título deste jaez sobre a BCP: "Serviço Telecard da Telefônica irrita clientes" (20/1). Telefone para ler
Os cursos de jornalismo continuam em alta. No vestibular da Fuvest (cinco universidades públicas do estado de São Paulo), foi o quarto mais procurado, num total de 80 cursos (atrás de Turismo, Publicidade e Polícia Militar). Na PUC-SP, jornalismo é o segundo , superado por medicina. Jornalismo no lide
A Folha deixou de aplicar a receita mais famosa de Maquiavel, de que o bem deve ser feito aos poucos e o mal, de uma vez só. O mal concentrava-se na página 2 do caderno de economia, às quintas-feiras, nas colunas de ácidos críticos da política econômica abrigados no jornal, o economista Paulo Nogueira Batista Jr., acima, e o jornalista Aloysio Biondi, abaixo. A dupla, com comentários, advertências e críticas até mesmo à cobertura da imprensa, destoa do timbre oficial da maioria dos colunistas semanais – a exemplo do ex-ministro Maílson da Nóbrega. Agora Biondi foi deslocado para o sábado, o dia mais frio da semana. Mal homeopático
A desvalorização do dólar melhorou a comparação de preços entre os jornais brasileiros e os americanos. Com o dinheiro empregado num Estadão (ou Folha, ou JB, ou Globo) comprava-se um New York Times e um Washington Post. Agora – com o dólar beirando R$ 2 – compra-se, pelo preço de um brasileiro, apenas um Los Angeles Times e um Washington Post. A queda livre do câmbio poderá ser, no entanto, motivo para aumento de preços, considerando que os jornais do Brasil usam papel importado. Mas, atenção: o preço do papel despenca como o real. Segundo o encarte do Wall Street Journal reproduzido no Estadão e no JB (1/2), a tonelada passou de US$ 600 em novembro para 570. "Acho que o preço pode descer para US$ 450 por tonelada", disse Mark Wilde, especialista no assunto. Um brasileiro = 2 americanos
A matéria do jornal e a fatura do ministro: Jornalismo uni-duni-tê
9/10/98:
VIAGEM OFICIAL Ministro das Comunicações ficou em hotel de luxo em Madri
Telefónica paga estadia para Mendonça de Barros
16/10/98
VIAGEM OFICIAL Ministro das Comunicações apresenta documentos sobre sua viagem a Madri e diz que pagou a estadia
Após sete dias, Mendonça divulga faturaQuatro meses depois, a Folha de S.Paulo ainda não esclareceu a seus leitores se errou ou acertou ao acusar o então ministro de cometer corrupção administrativa.
ah, e as investigações, da polícia, do Ministério Público e da imprensa sobre o "dossiê do Caribe"? Está nas mãos do destino, segundo o Estadão. Ou, como segunda opção, a polícia despista a imprensa e trabalha em silêncio. Na reportagem "Dossiê Cayman Falta de acordo com EUA dificulta investigação", assinada por Edson Luiz, em 10/1, o jornal informou: Quem não sabe nada: a polícia ou a imprensa?
"A polícia brasileira terá de contar com a sorte e a ajuda informal do Federal Bureau of Investigations (FBI), a polícia federal americana, para chegar aos autores do dossiê sobre uma suposta conta bancária, nas Ilhas Cayman, do presidente Fernando Henrique Cardoso, do ministro da Saúde, José Serra, do ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta – morto em abril – e do governador Mario Covas."Mais adiante, a segunda demonstração de que a investigação não anda: "O caso está cada vez mais difícil, reconhece um delegado ligado à cúpula da PF".
O jornal teve a bondade de sugerir aos leitores que a falta de informações - ou de investigações - pode ser uma manobra diversionista do superintendente da PF, Vicente Chelotti:"Se prevalecer o mesmo ritual de outras investigações feitas durante a gestão de Chelotti na PF, o episódio poderá ser resolvido sem dificuldades. Em quase todos os grandes casos, Chelotti sempre procurou despistar a imprensa. Foi assim para prender o autor da bomba no Itamaraty, os matadores de Chico Mendes e a transferência de Jorgina Fernandes, acusada de fraudar a Previdência".Bem, no caso da bomba do Itamaraty a polícia prendeu o homem errado. Os assassinos de Chico Mendes ficaram meses foragidos e a fugitiva Jorgina foi localizada na Costa Rica pelo repórter Roberto Cabrini, da Rede Globo.
Com jornais tão compreensivos, o governo não precisa de assessoria de imprensa.
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Boletim Nº 24 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 1999
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