Notícia
da Vega–OAS vai para o lixo
A
Voz para o dono
Jornal
omite derrotas e canta vitórias
Um
manual para o JB
Parceiros
do déficit
Notícia da Vega–OAS vai para o lixo
Como até as pedras sabiam, mas a imprensa de São
Paulo não alardeava, a empresa coletora de lixo Vega Sopave, do
grupo OAS, foi a única companhia a entrar na concorrência
aberta pela Prefeitura de São Paulo para concessão do programa
de medição da poluição emitida por veículos.
Vereadores do PT (José Eduardo Cardoso e Maurício Farias)
e entidades como o Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE) consideram
o edital restritivo e levantaram suspeitas de que foi costurado como uma
luva forrada de dólares para a mão suspeita da Vega-OAS.
Entre as exigências seletivas, estavam as de que só poderiam
participar da concorrência empresas proprietárias na cidade
de terrenos com um mínimo de 50 mil m2 e com experiência na
avaliação de poluição de mais de 1 milhão
de veículos. Os interessados tinham, portanto, de se associar a
estrangeiros, ou da Alemanha ou dos Estados Unidos, onde há muitos
anos funcionam programas de vistoria de carros. A Vega negociou associação
com a americana Envirotest, mas, na última hora, juntou-se à
alemã Rwtuv (1%) no consórcio Controlar.
Medir a poluição de carros em São
Paulo é um negócio melhor que construir estradas superfaturadas
no Nordeste. O investimento está estimado em US$ 10 milhões
e o faturamento anual em US$ 75 milhões - por vinte anos, que é
o prazo da concessão. O mercado é cativo: cada um dos 4,5
milhões de veículos da cidade será obrigado a pagar
R$ 18,45 pela inspeção. O governo do Estado, que por lei
controla a poluição dos carros, mas por convênio passou
a tarefa à Prefeitura, desenvolve um projeto paralelo que, segundo
a Secretaria do Meio Ambiente, será mais barato e evitará
o monopólio: em vez de uma única grande empresa, centenas
de oficinas mecânicas, desde que comprem um equipamento de US$ 40
mil, seriam credenciadas para fazer a vistoria. Atendendo às reclamações
do PNBE, a Justiça suspendeu a concorrência em 10 de outubro.
Outra vantagem do negócio é que, apesar
da suspeição, a imprensa cala. Os dois grandes jornais de
São Paulo (Folha e Estadão) e o prefeito Paulo Maluf são
fregueses dos patrocínios da OAS. Os jornais receberam algumas centenas
de milhares de dólares da empreiteira baiana e sua subsidiária
do lixo, a Vega, para pagar fascículos que deram de brinde a assinantes.
(ver boletim de julho). O prefeito embolsou US$ 815 mil na campanha eleitoral,
doados de forma irregular. Por falta de curiosidade que os manuais recomendam
e a ética inspira, os jornais paulistas cobrem o assunto com uma
inapetência de burocrata. Ninguém foi ver, por exemplo, como
funcionam - e o quanto o consumidor paga - esse serviço nos EUA
e na Alemanha. Nenhum concorrente da Vega-OAS, entre os 175 que retiraram
o edital (a construtora Enterpa, por exemplo), teve publicada opinião
sobre o assunto. A melhor cobertura do caso parece estar indo para o lixo
nos caminhões da Vega-OAS. rádio
A Voz para o dono
É justíssima a campanha iniciada pelo jornalista
Marcelo Parada, e depois encampada pela Rádio Eldorado (Grupo Estadão)
contra a obrigatoriedade de transmissão da Voz do Brasil pelas emissoras
de rádio do país às 19 horas de segunda a sexta-feira.
O deputado Cunha Bueno (PPR-SP) apresentou um projeto de lei para tornar
o programa facultativo e com apenas meia hora, em vez dos 60 minutos atuais
. De fato, a melhor fórmula é deixar a cargo das emissoras
a transmissão opcional do programa. A cruzada contra a obrigatoriedade
se sustenta, no entanto, pelo aspecto democrático: ainda que sejam
concessões do Estado (e aos colaboradores diletos do governo...),
as emissoras de rádio não podem engolir microfone a baixo
a transmissão de um programa oficial – obrigatoriedade, aliás,
instituída em 1962, no governo democrático de João
Goulart. A Voz do Brasil soa muito bem nas rádios do governo.
O que soa mal na campanha é o argumento, de radialistas
e do deputado Cunha Bueno, de que o noticiário da Voz do Brasil
é ruim e não interessa a ninguém. Comparada com o
besteirol caça-níqueis da maioria esmagadora das rádios,
com as exceções de praxe, a Voz do Brasil é mais séria
e informativa. É esperar para ouvir, às 19h, o locutor dizer:”Senhores
ouvintes, o mundo é quadrado”.
Jornal omite derrotas e canta vitórias
Se um político famoso é condenado por caluniar
um jornalista famoso, isso é notícia, certo? Certo. Se um
jornalista famoso é condenado por difamar um político famoso,
isso é notícia, certo? Bem, quer dizer, depende.
Os leitores do Estadão souberam, em 14 de setembro,
que o político Francisco Rossi, candidato do PDT ao governo de São
Paulo nas últimas eleições, foi condenado a pagar
uma indenização de cem salários mínimos ao
jornalista Fausto Macedo. Durante a campanha, Rossi chamou o repórter
do Estadão de “trombadinha de jornal”, num programa de rádio.
Ofendido, Macedo valeu-se de um instrumento democrático mais antigo
que a liberdade de imprensa, o processo judicial. O juiz Dimas Borelli
Thomaz Jr., da 30.a Vara Cível, deu a sentença apenas nove
meses depois, segundo a nota do Estadão, porque “a matéria
é apenas de direito e prescinde de provas”. Os leitores do Estadão
ficaram sabendo, portanto, que um político não pode injuriar
impunemente um jornalista.
Os leitores do Estadão ainda não foram
informados, no entanto, que seu acionista e diretor responsável
do Jornal da Tarde, Ruy Mesquita, foi condenado a três meses de detenção
e multa de dois salários mínimos por difamar o ex-governador
Orestes Quércia em um editorial de 15 de dezembro de 1993. O jornal
também sonegou aos leitores a informação de que seu
diretor-responsável, Júlio de Mesquita Neto, processou, mas
perdeu, o ex-governador Quércia por crime de difamação.
É um caso para estudo: trata-se de um dono de jornal processando
um político (e também dono de jornal...), com base na Lei
de Imprensa, por declarações prestadas a um jornal concorrente.
Durante a campanha presidencial, um repórter da Folha perguntou
a Quércia a que ele atribuía a hostilidade do Estadão
e publicou a resposta: “Eu denunciei o Júlio Mesquita por ter dado
um golpe na Bolsa de Valores de São Paulo”. Segundo a alegação
do advogado de Quércia, Antônio Cláudio Mariz, o fato
é verdadeiro, e Mesquita só não foi processado porque
quitou sua dívida com a Receita Federal. Quando a declaração
de Quércia foi publicada na Folha, em 9 de maio de 1994, Mesquita
entrou com queixa-crime na 17.a Vara Criminal de São Paulo, mas
o juiz Klaus Arroyo decidiu que não houvera ofensa ao jornalista.
Mesquita recorreu e o Tribunal de Alçada Criminal também
rejeitou a queixa-crime.
Do episódio se pode tirar pelo menos três
reflexões:
l) Quando um político processa um jornalista é
um deus-nos-acuda: no mínimo é acusado de cercear a liberdade
de imprensa; se o político perde, vira notícia; se ganha
a ação, não se fala no assunto;
2) Jornalistas jorram nojo contra a Lei de Imprensa,
chamando-a de “lei da ditadura”, por ter sido promulgada em 1967, na gestão
do marechal Costa e Silva, mas recorrem à “lei da ditadura” quando
querem encurralar um desafeto;
3) Processos que envolvam os meios de comunicação,
como autores ou réus, devem ser obrigatoriamente noticiados: primeiro,
porque são notícia; segundo, porque, se divulga processo
dos outros, o jornal deveria contar os seus.
Um manual para o JB
O Jornal do Brasil instituiu um manual de redação,
em 1989, mas, de tão curto e omisso, caiu no esquecimento. Hoje,
é o único dos grandes jornais que não tem um código
interno detalhado para orientar os profissionais e brecar pequenos estelionatos
editoriais. Na edição de 30/7, lia-se a chamada de capa “Vera
Fischer nua treze anos depois. Pág. 6”. Na página 6, uma
nota – só texto – decepcionava e informava que a atriz estava negociando
tirar a roupa para a revista Playboy. Na edição de 1/9, o
jornal deu em destaque na primeira página: “Irmão de Edmundo
é preso em favela” - referindo-se a Luis Carlos Alves de Souza,
irmão do atacante do Flamengo, detido numa “boca-de-fumo” em Niterói.
O manual do Globo proíbe esse tipo de associação
matreira. “Apenas em circunstâncias muito especiais é aceitável
destacar a relação de parentesco, amizade etc. entre pessoa
envolvida em ato ilegal ou imoral e outra já conhecida do público
(político, atleta, artista etc). Não é correto registrar
a existência da relação apenas para aumentar o interesse
do leitor pela notícia”, diz o manual. O Globo ignorou que o obscuro
Luiz Carlos de Souza fora preso em Niterói – arbitrariamente, pois
não carregava drogas, detalhe que o JB não ressaltou.
Parceiros do déficit
Parte da imprensa continua escolhendo mal os sócios
em empreitadas para seduzir os leitores - sejam empresas suspeitas, seja
o dinheiro público. A agência Estado (grupo Estadão)
e o jornal Estado de Minas foram buscar nos cofres do Banco Rural e no
tesouro mineiro a verba para lançar um CD-ROM sobre a II Guerra
Mundial. São duas parcerias inadmissíveis para quem prega
a moralidade pública: o banco apareceu em duas de cada três
estripulias de PC Farias com contas fantasmas; o governo de Minas, que
só de títulos no mercado deve US$ 5 bilhões, não
tem dinheiro sobrando para esse tipo de patrocínio de retorno infinitamente
pequeno ao povo mineiro. Conclusão: o Banco Rural era ruim quando
abria contas fantasmas, mas é bom quando abre o bolso para patrocínios;
e do governo de Minas não se cobra austeridade quando os jornais
é que aumentam o déficit do tesouro estadual.
É de se registrar também o alto-contraste
no silêncio do conjunto da imprensa sobre prêmios instituídos
pelos governos federal e estaduais para agradar jornalistas. O último
da safra, contra o qual ninguém escreveu uma linha, foi criado pela
Caixa Econômica Federal. Vai distribuir R$15 mil - ou, como diriam
os jornais se a mamata não fosse deles, o suficiente para a construção
de x casas populares
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Prêmios
Boletim Nº 5 Agosto-Outubro de 1995
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