As seções de Correção dos principais jornais brasileiros são colunas minúsculas onde eles escondem hoje o erro ostensivo de ontem. Mas, pelo menos, já estão presentes, com lugar fixo e freqüência razoável, em três dos diários mais influentes — Folha, Globo e Jornal do Brasil. O Estadão tem uma seção sazonal que perambula pelas páginas, e não por acaso é o jornal que menos correções publica. Um levantamento feito pelo Instituto Gutenberg mostra que, no semestre passado, precisamente de 1.º de janeiro a 30 de junho, a Folha foi a campeã das correções (veja a tabela), com um total de 730 notas. O recorde foi batido em fevereiro: 133 notas (uma nota pode corrigir mais de uma informação errada). Foi raro o dia em que o jornal publicou apenas uma correção, mas em algumas edições divulgou até dez notas, e tem a média de 4 por dia no semestre. O Estadão, com a média de 0,15, faz uma autocrítica monumental quando publica duas notas numa só edição.
O maior jornal do país foi pioneiro na fixação da seção Erramos, na página 3, abaixo do Painel do Leitor, e deu um bom exemplo. Até a expressão “diferentemente do publicado...” adotada inicialmente pela Folha foi copiada por outros jornais, principalmente pelo Globo. A Folha corrige muito porque erra muito? Não. O alto número de correções indica apenas um serviço de diagnóstico — e reconhecimento — mais atento ao erro. O jornal mantém uma equipe de Controle de Erros que aponta os problemas de cada edição e notifica a Secretaria de Redação. Muitas vezes o ombudsman, provocado pelos leitores, pede correções. A Folha sincronizou a seção Erramos com o Painel do Leitor. Quando uma carta impõe correção, o jornal remete o leitor para “Erramos”, onde é feito o acerto.
No levantamento do Instituto Gutenberg só foram consideradas as correções ostensivas, divulgadas com este título ou na seção específica. Outra pesquisa apontará as correções jornalisticamente corretas, isto é, de reportagem errada com reportagem certa. Dar à correção o destaque gráfico e o formato originalmente conferidos ao erro é prática rara. Eis um caso, de 28/6, em que a emenda deveria sair em forma de notícia com o destaque proporcional à gravidade do equívoco: “O Ministério Público denunciou o prefeito de Japeri, Luiz Barcelos, por formação de quadrilha e falsificação de documento público, e não o prefeito de Itaguaí, conforme publicado equivocadamente anteontem pelo Jornal do Brasil”.
O JB tem um mérito suplementar na seção “Deu no JB”, publicada nos sábados, que é um misto de Correção e A Opinião dos Leitores. Ali o jornal divulga cartas, dá respostas e em muitos casos elimina equívocos com o reconhecimento “o leitor tem razão...”. Às vezes os leitores tripudiam. Alessandro Candeas escreveu para dizer que, ao contrário do que afirmara o jornal em 4/2, Jesus Cristo não “está sepultado” em Jerusalém. “Ele ressuscitou! Com o mesmo nível de conhecimento histórico, talvez o JB possa informar a seus leitores em que cemitério está enterrado Ulysses Guimarães”, escreveu o leitor.
Um problema com as correções é que se limitam a dados factuais. Grande parte, sobretudo no Estadão, Globo e JB, se refere a erros em autoria de fotos, nomes de pessoas, números, telefones trocados — a sugerir que os prejudicados reclamaram. É raro o apontamento de gafes comprometedoras, imperceptíveis para a maioria dos leitores, como esta, no Globo, em 2/4: “Diferentemente do que diz a legenda da página 16 de segunda-feira, a mulher que aparece na foto não é uma prostituta. Ela é dona de um bar na Vila Mimosa”. São igualmente raras as correções gramaticais e ortográficas, talvez porque sejam muitos os erros. A Folha garante que trata melhor o idioma. Um levantamento citado na edição de 1.º/01 diz que “o jornal apresentou 0,44 erro por coluna de texto, o que equivale a aproximadamente 2,6 erros em uma página cheia (cada página é dividida verticalmente em seis colunas de texto). Em segundo lugar, de acordo com o mesmo levantamento, vem O Estado de S.Paulo, com 0,94 erro por coluna de texto, seguido por O Globo, com 1,30, e pelo Jornal do Brasil, com 1,75”.
Os jornais brasileiros avançaram nas correções factuais, mas ainda não têm o costume de admitir erros de método, nem de compartilhar com os leitores eventuais autocríticas internas. A imprensa brasileira parece imune a exemplos como o do jornal americano San Jose Mercury News, que, em abril passado, retificou e admitiu como inexata uma série de reportagens sobre a CIA publicada em 1996 (leia no nº 15, “Fiscalização de jornais em jornal gera pedido de desculpas aos leitores”). Publicações que cometeram erros montanhosos no caso da Escola Base e nas investigações sobre a morte de PC Farias, por exemplo, com o JB e a revista IstoÉ à frente, até hoje não se corrigiram.
À medida que crescem, as seções de Correção servem, além do restabelecimento da verdade, como uma porta de entrada do leitor no jornal. Antes de iniciar a leitura, ele pode verificar em quais informações da edição passada não deve acreditar . Pode até se divertir. Algumas notas são hilariantes, saneadoras de erros primários que ficam ainda mais ridículos na linha fria da correção. Por causa dessas pérolas, as seções de Correção podem ser usadas insidiosamente contra os jornais — mas são uma prova de seriedade e altivez que só engrandece a imprensa. Jornais perdulários no equívoco e avarentos na correção demonstram compromisso com o erro, não com a exatidão.
Boletim Nº 16, Julho-Agosto de 1997
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