Tortura, cada vez mais
Papel da mídia é divulgar para indignar
A mídia brasileira é muito tolerante com a tortura. Volta e meia estouram denúncias de maus-tratos impostos pela polícia a gente simples, em geral pobres e negros, humilhados e ofendidos, e a imprensa age como se fossem casos fortuitos. Noticiário sobre um crime hediondo aqui, outro ali, e as notícias ressecam como se abordassem fatos excepcionais a exigir atenção eventual. A tortura é um crime bárbaro a merecer um volume de desprezo e combate maior do que reportagens isoladas. Se não é uma regra de interrogatório, a tortura não é exceção nas investigações em que policiais lançam mão de um conjunto de corda, madeira e fios elétricos para montar em minutos um artefato chamado pau-de-arara. Por esse brasileiríssimo engenho do mal é destilada a confissão de suspeitos e acusados, culpados e inocentes.
Boletim 12, Novembro-Dezembro de 1996
Casos como o da Escola Base e do Bar Bodega, em que cidadãos foram linchados moralmente pela mídia e torturados fisicamente pela polícia, são plenamente espúrios, mas não podem se encerrar na sua magnitude isolada. Foi sintomático o jejum, no caso Bodega, dos principais meios de comunicação do país. Cobriram o caso, mas não fizeram as matérias de documentação do problema. O manual seguido por esses veículos permite deduzir que o noticiário sobre um grande acontecimento deve ser seguido de “uma geral no setor”. Se cai um avião, seguem-se reportagens, artigos, comentários, gráficos sobre segurança de vôo. Mas quando estourou, pela revelação da PM e pela coragem do promotor Eduardo Araujo da Silva, a denúncia de que policiais do 37° DP de São Paulo haviam implantado a ferro e fogo a culpa em nove acusados de cometer dois assassinatos no Bodega, nenhum jornal, revista ou TV empenhou-se em mostrar que a tortura é rotina. Todos limitaram-se ao caso.
A revista Veja recompôs-se da omissão dois meses depois (18/12) com uma reportagem de quatro páginas em que afirma que os torturados não eram ricos, brancos, sindicalistas ou militantes de esquerda. “Como não são nada disso, há um enorme silêncio”. De fato, e o mais pesado e comprometedor silêncio é o da mídia. Se a tortura é comum, as notícias sobre elas também deveriam ser freqüentes.
No entanto, da mesma forma que espera uma estrela do showbiz trocar tapas com um policial para dar generoso espaço à brutalidade da polícia, como aconteceu numa rusga da cantora Paula Toller com um agente da Polícia Federal, em agosto, no aeroporto do Rio, a mídia se dobra à seleção das notícias. Ganha corpo o argumento, avalizado por Veja, de que a imprensa só insiste nas notícias ecoadas pelos formadores de opinião. Se gente influente reclama, denuncia, faz campanha, haja notícia. Esse é um argumento contra a imprensa. Independentemente de a elite espernear, cabe à mídia divulgar, para a sociedade se indignar. Em vez disso, cruza os braços e informa que não vai atrás do que é importante, só do que repercute.
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